Milhões de pessoas usam antidepressivos, mas ainda
não entendemos como eles funcionam
- Pelo menos desde os anos 2000 evidências deixam claro que eles não
corrigem deficiência química no cérebro
- Saber o mecanismo desses medicamentos é importante para fazer
avançar a pesquisa científica
Ultimamente, o debate público sobre os antidepressivos tem se
concentrado sobretudo em se é aconselhável parar de tomá-los e em como fazer
isso.
O secretário da Saúde dos Estados Unidos, Robert F. Kennedy Jr., tornou
a desprescrição —ou seja, a redução gradual e supervisionada do uso de
medicamentos— um dos focos de sua política. Kennedy e outros críticos dos
antidepressivos afirmam que esses medicamentos são prescritos em excesso e têm
efeitos colaterais perigosos.
A comunidade médica, no entanto, os considera tratamentos eficazes e
necessários para pessoas com uma ampla gama de transtornos mentais, entre eles
depressão, ansiedade e TOC (transtorno obsessivo-compulsivo).
Mas, por trás desse debate, há uma questão mais fundamental que a
ciência ainda não conseguiu responder de forma conclusiva: como, exatamente, os
antidepressivos funcionam?
Pelo menos desde o
início dos anos 2000 —se não antes—, as evidências de pesquisas deixam claro
que não é assim que os antidepressivos funcionam.
Os médicos prescrevem esses
medicamentos porque décadas de estudos e relatos de pacientes mostram que eles
podem aliviar problemas de saúde mental.
Mas médicos e cientistas não
compreendem claramente como eles fazem isso. Pode parecer surpreendente, mas o
mesmo ocorre com muitos outros tipos de medicamento, como o paracetamol e os
anestésicos gerais.
Ainda assim,
entender como os antidepressivos funcionam é importante não apenas para
informar o público, mas também para fazer avançar a pesquisa científica —sobre
por que esses medicamentos não são eficazes para todos e como desenvolver mais
tratamentos.
Hoje, os
cientistas trabalham com várias explicações promissoras. Nenhuma hipótese é uma
verdade científica estabelecida, e algumas podem ser refutadas amanhã. Mas, em
conjunto, elas representam o entendimento mais sólido de que a medicina dispõe
atualmente.
FOLHA DE SAO PAULO