A ciência e a política por trás do pânico em torno
dos alimentos ultraprocessados
- Estudos associam produtos industrializados a doenças crônicas, e
brasileiro cunhou o termo em 2009
- Alguns pesquisadores dizem que tema se tornou um pânico moral e que
alguns ultraprocessados podem fazer parte de uma alimentação saudável
Os alimentos ultraprocessados têm uma péssima
reputação.
Estudos os associaram a várias doenças crônicas. Jornalistas e
influenciadores da área da saúde os caracterizam como veneno. Alguns
especialistas em saúde pública defendem uma suspensão global da
produção e do consumo desses alimentos.
Mas o debate em torno dos alimentos
ultraprocessados está longe de tão encerrado quanto pode parecer. Como pesquisador que estuda
movimentos sociais em prol de uma alimentação saudável e sustentável,
venho documentando a história dos alimentos processados e examinando os debates
em torno da ciência e da política do ultraprocessamento.
Em termos básicos, os alimentos ultraprocessados
são formulações industriais produzidas em massa que utilizam ingredientes não
encontrados normalmente na cozinha doméstica e que, em geral, contêm poucos ou
nenhum alimento integral intacto.
As pessoas vêm processando alimentos —ou seja,
transformando culturas e animais em ingredientes e produtos alimentícios— ao
longo de toda a história da humanidade.
O cozimento, que os historiadores
geralmente consideram a primeira forma de processamento de alimentos,
remonta até 2 milhões de anos atrás.
Nos milênios e séculos que se seguiram, as
pessoas desenvolveram e aperfeiçoaram outros métodos tradicionais de
processamento de alimentos, incluindo moagem, cozimento, fermentação, secagem e
prensagem.
Novos tipos de processamento de alimentos surgiram
durante a era industrial, a partir de meados do século 18.
O enlatamento, a
pasteurização e a refrigeração estiveram entre as principais inovações que
transformaram não apenas a forma como as pessoas se alimentam, mas a sociedade
como um todo .
De acordo com o quadro conceitual, as empresas
projetam alimentos ultraprocessados para que sejam práticos, extremamente saborosos e altamente
lucrativos. Eles são embalados de forma atraente, comercializados
intensivamente e destinados a substituir outros grupos alimentares.
Hoje, os alimentos ultraprocessados têm uma participação cada vez maior na
alimentação global. Eles representam mais de 50% do total de
calorias ingeridas nos Estados Unidos, com muitos países de baixa e média renda
não muito atrás.
Apenas
um punhado de ensaios clínicos capazes de realmente demonstrar causa e efeito
explorou os efeitos dos
alimentos ultraprocessados na saúde.
Um estudo de destaque constatou que os participantes que seguiram uma dieta à
base de alimentos ultraprocessados por duas semanas consumiram mais calorias e
ganharam mais peso do que os participantes que seguiram uma dieta com alimentos
minimamente processados, mas outros experimentos não encontraram nenhum efeito
claro.
Além disso, esses estudos geralmente duram apenas algumas semanas —um
período muito curto para se tirar conclusões sobre os impactos à saúde a longo
prazo.
Nesse sentido, os alimentos ultraprocessados são um
sintoma de um problema maior: um sistema alimentar industrial insustentável
dominado por um punhado de corporações. Esse argumento, é claro, também é
bastante contestado.
Em última análise, pesquisadores e defensores de
todos os lados do debate concordam, em sua maioria, que o ambiente alimentar
moderno precisa se tornar mais saudável.
O principal ponto de divergência, no
entanto, é se as políticas públicas e as orientações alimentares devem abordar
diretamente o ultraprocessamento ou, ao contrário, manter um enfoque mais
tradicional nos nutrientes.
FOLHA DE SAO PAULO