MUNDO CORPORATIVO


Se esquecermos um pouco do medo de perdermos nossos empregos para um cérebro eletrônico, é possível se concentrar nas facilidades que a IA pode trazer ao cotidiano no trabalho: resumir assuntos, ajudar na montagem de apresentações, acelerar cálculos demorados… tudo é da lei.

O problema é que é fácil se embananar com novas tecnologias. Um estudo de Aruna Ranganathan, professora da escola de negócios de Stanford, e Xingqi Maggie Ye, pesquisadora da UC Berkeley, publicado na revista Harvard Business Review, apontou que a carga de trabalho por funcionário pode estar aumentando a partir do uso da IA.

A partir de dados recolhidos em uma empresa americana de tecnologia com cerca de 200 empregados, elas perceberam que os colaboradores que usavam IA a partir dos próprios critérios estavam trabalhando em um ritmo acelerado, assumindo um escopo maior de tarefas e demoravam mais horas para terminá-las —na maioria das vezes, sem que chefes tivessem pedido que eles estendessem o expediente.

Tá, mas e daí? O acúmulo de funções e demandas pode levar essa história a um final bastante conhecido nos escritórios mundo afora: esgotamento, desânimo e burnout.

Segundo Ranganathan, essa exaustão gera riscos de aumento de erros e enfraquecimento da habilidade do funcionário de tomar decisões.

Rua sem saída?

Não é para tanto. Denis Caldeira, executivo da tecnologia e autor do livro “Cresça ou Desapareça", aponta que há formas inteligentes de utilizar a IA no trabalho, sem comprometer a qualidade das entregas e perder o que chamamos de "soft skills” —habilidades propriamente humanas, importantes no ambiente corporativo.

•      “Delegar o pensamento crítico para a ferramenta é um erro. Grande parte do seu valor [enquanto colaborador] está no pensamento crítico: não agregar nenhuma reflexão às tarefas é tirar valor do que você está fazendo", afirma.

A não pensa… lembra Caldeira. Ela faz o que você pede para ela. Portanto, o papel de entender quais são os seus limites e quais são as funções da máquina cabe a você.

•      “IA não necessariamente resolve problemas, ela amplifica seu pensamento: se as ordens forem confusas, o resultado será confuso", aconselha.

O especialista cita um levantamento do MIT (Massachusetts Institute of Technology) publicado no final de 2025 que afirma que 95% das empresas que gastaram dinheiro com a implantação de IA generativa ainda não têm retorno financeiro da aplicação.

Segundo ele, o problema surge quando não há clareza sobre quais benefícios a tecnologia deve trazer aos processos —seja na gestão ou no dia a dia de cada colaborador.

•      "Não é porque você está gerando volume que está gerando resultado. Cria textos, cria emails, cria relatórios, mas não lê nem valida as respostas que a IA manda?", questiona Caldeira.

E agora?

A primeira dica do especialista para otimizar o uso da IA no cotidiano é: pense. Olhe para todas as suas funções e organize-as entre o que pode ser automatizado sem prejuízo ao conteúdo e o que ainda precisa do crivo do seu cérebro de Homo sapiens sapiens.

Tome um tempo para se adaptar antes de assumir novas atribuições. Uma vez assentado, avalie as novas funções que assumirá: é parte do seu escopo? O quanto de produtividade será agregado aos processos e projetos caso você assuma essa tarefa?

Assim, você reduz o risco de sobrecarga e aumenta a eficiência do trabalho que executa. Citando Caldeira uma última vez: o pensamento crítico é parte das suas atribuições.




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