O mercado
aguarda com expectativa o dia 2 de abril, data prometida pela administração
Trump para o anúncio de um novo e amplo pacote tarifário. Batizado de
“Liberation Day” por aliados, o evento deve marcar uma nova etapa da
política comercial americana, centrada na ideia de “tarifas recíprocas”. Embora a definição exata ainda gere dúvidas, os sinais até aqui indicam uma
proposta ambiciosa, com potencial para afetar significativamente o comércio
global.
A justificativa central é que os EUA possuem, em média, tarifas mais baixas
do que muitos de seus parceiros. O conceito de reciprocidade, no entanto,
pode extrapolar a equiparação direta de tarifas. Documentos preliminares
indicam que a equipe de Trump avalia como distorção competitiva o modelo de
imposto sobre valor agregado (IVA), especialmente em países da Zona do
Euro, que isentam exportações e tributam importações. Caso esse componente
seja incluído, o ajuste “recíproco” poderia implicar tarifas da ordem de
20% — bem acima do que seria considerado um alinhamento convencional.
A nova estrutura deve dividir os parceiros comerciais em três grupos:
“amigos”, “competidores” e “rivais”, com diferentes níveis de tarifação. Secretários da administração têm dito que ainda esperam alcançar acordos
com alguns países antes de 2 de abril, para evitar que sofram o aumento
completo. Até o momento, já foram aplicadas tarifas sobre produtos da
China, México e Canadá. Setores como aço, alumínio e automóveis já sofreram
reajustes tarifários recentes, com impacto relevante sobre o comércio
bilateral.
O principal ponto de atenção segue sendo a abrangência das tarifas. Caso o
pacote inclua medidas para compensar o IVA, o impacto sobre crescimento
global pode ser significativo. Algumas instituições poderiam inclusive
passar a considerar recessão nos EUA como cenário base. No entanto, os
comentários recentes do presidente Trump — sugerindo que os mercados
“ficarão positivamente surpresos” — reforçam a hipótese de uma abordagem
mais contida.
Nosso cenário base na SulAmérica Investimentos considera a adoção de
tarifas recíprocas sem compensação do IVA. Esperamos novas tarifas
direcionadas a setores estratégicos, como fármacos, chips e bens industriais,
com ajustes por país conforme o enquadramento na nova classificação de
parceiros.
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