Quem vai cuidar de você? Brasil envelhece sem se
preparar para conta da longevidade
- Número de idosos que precisarão de cuidados de longa duração deve
saltar de 5,1 milhões para 17 milhões até 2050
- Especialistas defendem criação de reserva financeira específica
para cuidado a partir dos 50 anos
Os dados demográficos mostram que embora tenhamos
ganho anos de expectativa de vida na última década, ainda não conseguimos
reduzir os anos vividos com incapacidade. Se não acelerarmos, seremos engolidos
pelo 'tsunami prateado'.
Eduardo Canteiro Cruz | médico geriatra e
diretor administrativo da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia
(SBGG)
Até outro dia, envelhecer foi tratado como uma
etapa da vida resolvida dentro da família. Filhos cuidavam dos pais, irmãos
dividiam tarefas e, quando a dependência aparecia, alguém —quase sempre
uma mulher— reorganizava a própria rotina para assumir o cuidado.
Esse modelo começa a perder sustentação.
A geração que hoje está na faixa dos 45 anos ou
mais vai chegar à velhice em um Brasil com mais idosos, menos filhos e uma
estrutura familiar menor.
Viver mais deixou de ser apenas uma conquista da
medicina e passou a colocar uma nova pergunta no centro do planejamento financeiro: quem vai pagar e quem
vai cuidar quando a independência para os afazeres do dia a dia diminuir?
A conta do cuidado é uma despesa que ainda quase
não aparece nos planos de aposentadoria, mas pode consumir uma parcela
significativa da renda acumulada ao longo da vida.
Até 2050, o número de idosos que vão precisar de
cuidados de longa duração deve saltar de 5,1 milhões para 17 milhões, segundo
projeções do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).
Mantido o modelo
atual, cerca de 1 milhão poderá ficar sem assistência, enquanto aproximadamente
2,3 milhões dependerão de cuidadores remunerados.
Para Alexandre Kalache, presidente do Centro
Internacional de Longevidade Brasil (ILC-Brasil), o país vive uma transformação demográfica sem precedentes.
"O único grupo da população que continua crescendo desde os anos 2000 é o
de pessoas com mais de 60 anos, sobretudo acima de 80", afirma.
"O Brasil está envelhecendo antes de ter
enriquecido", diz Kalache.
O impacto já aparece no orçamento das famílias.
Quando um idoso perde a capacidade de realizar
sozinho atividades como tomar banho, se alimentar, administrar medicamentos ou
circular pela casa, surge uma estrutura de gastos que pode durar anos.
O desafio de custear o cuidado na velhice não
é exclusivo do Brasil. Na Alemanha e no Japão, porém, a assistência conta com
sistemas específicos de financiamento —incluindo seguros obrigatórios para
custear parte dos cuidados—, mecanismos que ajudam a dividir essa
responsabilidade entre famílias, Estado e sociedade.
"A pandemia mostrou que nem países ricos
estavam preparados para cuidar de uma população tão envelhecida", afirma
Alexandre Kalache. "O desafio brasileiro é ainda maior."
FOLHA DE SÃO PAULO