PERSPECTIVA SEMANAL


O custo global do capital e a função de reação do Banco Central.

As últimas semanas consolidaram a elevação das taxas de juros de longo prazo nas principais economias desenvolvidas aos maiores patamares vistos em décadas. 

Longe de representar um choque passageiro, o ajuste sincronizado em países como Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha e Japão reflete três condicionantes estruturais: a expansão fiscal generalizada com aumento expressivo na emissão de dívidas, a forte demanda por poupança global impulsionada pelos investimentos em Inteligência Artificial e data centers — que passam a disputar capital com os títulos públicos —, e a percepção de que os bancos centrais estão atrás da curva. Nos EUA, o debate já migrou para a necessidade de eventuais altas, enquanto no Japão as intervenções cambiais mostram eficácia limitada diante dessas forças de fundo.

Para as economias emergentes, o impacto desse movimento internacional é direto e inevitável. 

Diante de um ativo livre de risco global pagando taxas substancialmente mais elevadas, exige-se um prêmio de risco adicional para atração e retenção de capital, o que eleva a taxa de juros neutra de equilíbrio e restringe as condições financeiras globais. 

No Brasil, esse aperto exógeno se transmite prioritariamente por meio da depreciação do câmbio e da inclinação da curva longa de juros — duas variáveis determinantes que condicionam diretamente o espaço de manobra do Banco Central.

No âmbito doméstico, os dados de atividade indicam uma desaceleração gradual e ordenada, sem sinalização de parada brusca, caminhando de um crescimento ao redor de 2,3% no ano passado para algo próximo de 2,0% em 2026. Contudo, o processo de desinflação não avança na mesma velocidade.

Mantemos nossa projeção do IPCA de 2026 em 5,1%, significativamente distante da meta de 3%, sob a pressão contínua da inflação de serviços e de uma desancoragem persistente das expectativas de longo prazo.

Diante dessa leitura, nosso cenário-base prevê mais um corte de 25 pontos-base na taxa Selic, encerrando 2026 em 13,75%. 

Avaliamos que existe uma assimetria baixista para a taxa terminal, dadas as sinalizações recentes de preferência revelada da autoridade monetária em prosseguir com a flexibilização. 

No entanto, ressaltamos a cautela com esse plano de voo: o ambiente prospectivo segue desafiador, pressionado por juros externos elevados, indefinição na trajetória das contas públicas e riscos acumulados para o último trimestre do ano, envolvendo petróleo, clima e calendário eleitoral.

Em síntese, o câmbio se consolida como a variável-chave do cenário. Enquanto a moeda nacional mantiver um comportamento relativamente comportado, o Banco Central encontrará margem para executar a calibração pretendida. 

Por outro lado, se a percepção de risco fiscal voltar a se deteriorar ou a volatilidade global pressionar a taxa de câmbio, a autoridade monetária poderá ser forçada a reavaliar sua função de reação, impondo um teste definitivo entre o seu desejo de cortar juros e a realidade exigida para a convergência da inflação.

Destaques da semana

Brasil

No Brasil, a semana terá uma agenda bastante cheia e crucial para a leitura de inflação e atividade econômica. Os principais holofotes estarão sobre a divulgação do IPCA-15, nesta quarta-feira, e de uma bateria de dados na sexta-feira, que inclui o Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M), dados de emprego do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) e do mercado de crédito.

•    Segunda-feira: Relatório Focus; Balança Comercial (3ª semana de agosto); IPC-S (3ª semana de agosto).

•    Terça-feira: IPC-FIPE (3ª semana de agosto); Confiança do Consumidor da FGV (agosto).

•    Quarta-feira: Dívida Pública Federal Total (julho); IPCA-15 (agosto).

•    Quinta-feira: Conta Corrente (julho); PNAD Contínua (julho).

•    Sexta-feira: IGP-M (agosto); Caged (julho); Resultado Primário (julho); Dados de Crédito (julho).

Estados Unidos

A semana nos Estados Unidos promete ser bastante movimentada, com atenção especial voltada para a divulgação do Índice de Preços para Despesas com Consumo Pessoal, também chamado de Deflator do PCE, e do Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre nesta quarta-feira. Além disso, o mercado acompanhará de perto os leilões de Bonds (títulos da dívida pública) ao longo da semana, dados do mercado imobiliário e os discursos de membros do Federal Reserve (Fed), com destaque para fala do presidente do banco central americano, Kevin Warsh, em Jackson Hole, nesta sexta-feira.

•    Segunda-feira (24): Índice de Atividade Nacional do FED Chicago (julho), Anúncio de Sanções Econômicas ao Irã.

•    Terça-feira (25): Discurso do presidente do Fed de Richmond, Thomas Barkin(Fed); Índice de Atividade de Serviços do Fed Philadelphia (agosto); ADP (Variação de Empregos Privados Não-Agrícolas) Semanal; Índice de Atividade da Indústria do Fed Richmond (agosto); Vendas de Novas Casas (julho); Concessões de Alvarás (julho); FHFA - Índice de Preço de Casas (junho); Confiança do Consumidor - Conference Board (agosto).

•    Quarta-feira (26): Leilão Bonds 2 Anos, Leilão Bonds 5 Anos, discurso de Barkin (Fed), Deflator do PCE (jul), PIB (2T26), Encomendas de Bens Duráveis (julho).

•    Quinta-feira (27): Pedidos de Seguro Desemprego Semanal, Estoques do Atacado (julho), Sondagem Industrial - FED Kansas (agosto), Leilão Bonds 7 Anos.

•    Sexta-feira (28): Discurso de Kevin Warsh (Fed); Sondagem de Serviços do Fed Kansas (agosto); Chicago PMI - Índice de Gerentes de Compras (agosto); Confiança do Consumidor da Universidade de Michigan (agosto).

Europa

A agenda europeia traz como destaques a publicação do PIB do segundo trimestre na Alemanha e do Índice de Clima de Negócios IFO nesta terça-feira. No final da semana, as atenções se voltam para a confiança do consumidor da Zona do Euro e da Alemanha, acompanhadas por pronunciamentos de dirigentes do Banco Central Europeu (BCE).

•    Segunda-feira: Sem indicadores relevantes previstos na agenda.

•    Terça-feira: PIB da Alemanha (2º trimestre); Pesquisa de Clima de Negócios IFO da Alemanha (agosto).

•    Quarta-feira: Discurso de Piero Cipollone (BCE).

•    Quinta-feira: Confiança do Consumidor da Alemanha (setembro).

•    Sexta-feira: Confiança do Consumidor da Zona do Euro (julho); discurso de Isabel Schnabel (BCE).

Ásia

Na Ásia, a agenda de dados ganha tração na segunda metade da semana, com a divulgação dos Lucros Industriais na China na quinta-feira. No Japão, os destaques ficam por conta do Índice PPI de Serviços, dos dados de inflação com o Tokyo CPI e da taxa de desemprego ao encerramento da semana.

•    Segunda-feira: Sem indicadores relevantes previstos na agenda.

•    Terça-feira: PPI de Serviços do Japão (julho); Indicador Antecedente do Japão (junho).

•    Quarta-feira: Sem indicadores relevantes previstos na agenda.

•    Quinta-feira: Pedidos de Máquinas do Japão (julho); Lucros Industriais da China (julho).

•    Sexta-feira: CPI do Japão (agosto); Taxa de Desemprego do Japão (julho).



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