Novo ataque de Trump à independência do Fed
pode ter graves consequências.
A escalada institucional envolvendo a
independência do Federal Reserve (Fed) ganhou um novo e relevante capítulo no
último final de semana, quando o Departamento de Justiça dos Estados Unidos
indiciou o presidente do banco central norte-americano, Jerome Powell, por
suposto perjúrio em depoimentos ao Congresso relacionados à reforma de prédios
da instituição em Washington.
O custo do projeto, hoje estimado em US$ 2,5
bilhões, já vinha sendo usado como argumento político por aliados do presidente
Donald Trump, mas a abertura formal de um inquérito pelo Departamento de
Justiça representa uma intensificação inédita do conflito, com implicações que
extrapolam o episódio específico da reforma.
Esse movimento se insere em um padrão mais
amplo de utilização de instrumentos jurídicos e administrativos contra membros
do Fed.
Casos recentes, como a saída da ex-governadora do Fed Adriana Kugler e
a demissão — posteriormente suspensa pela Suprema Corte — da diretora Lisa
Cook, indicam uma estratégia de pressão institucional sobre o banco central.
O
desfecho do julgamento, esperado para o fim de janeiro, será crucial: caso a
Suprema Corte valide a possibilidade de demissões por infrações administrativas
não julgadas, o precedente pode abrir caminho para uma tentativa de afastamento
de Powell com base nessas acusações.
A resposta de Powell também marcou uma mudança
relevante de tom.
Ao divulgar um comunicado oficial e um vídeo institucional
durante o fim de semana, o presidente do Fed sinalizou explicitamente ao
mercado que enxerga o inquérito como uma tentativa de constranger a política
monetária e minar a independência da instituição.
O uso direto dos canais
oficiais do Fed para esse posicionamento sugere uma leitura de risco sistêmico,
e não apenas reputacional, do episódio.
No campo político, a reação inicial tem sido
mista, mas com sinais importantes de resistência. Ex-presidentes do Fed e
ex-secretários do Tesouro americano se manifestaram publicamente em defesa de
Powell, e parte do Partido Republicano também demonstrou desconforto com a
escalada do conflito.
Em particular, a posição do senador Thom Tillis, membro
do Partido Republicano da Carolina do Norte e da comissão bancária do Senado,
ao indicar que bloquearia novas nomeações para o Fed caso a acusação não seja
retirada, eleva o custo político da estratégia e pode limitar a capacidade de
Trump de remodelar a liderança da autoridade monetária.
Do ponto de vista macroeconômico e de mercado,
os riscos são assimétricos.
Ataques à independência do Fed tendem a reduzir, e
não ampliar, o espaço para cortes de juros no curto prazo, uma vez que o Comitê
Federal de Mercado Aberto (FOMC) pode optar por uma postura mais conservadora
para evitar a percepção de submissão política.
Em um cenário mais extremo, a
percepção de erosão institucional pode se traduzir em prêmios de risco mais
elevados, com aumento da inflação implícita, maior inclinação da curva de juros,
pressão sobre as taxas longas e enfraquecimento do dólar, ao mesmo tempo em que
ativos como metais preciosos ganhariam atratividade.
Em suma, a tentativa de
pressionar o Fed pode produzir exatamente o oposto do efeito desejado sobre as
condições financeiras.
Destaques da semana
Brasil
No cenário doméstico, a semana traz
indicadores relevantes de atividade econômica e do setor automotivo.
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Segunda-feira: Relatório Focus; Balança Comercial Semanal; IPC-Fipe (4ª
semana de novembro).
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Terça-feira: Pesquisa Mensal de Serviços (novembro); Fenabrave
(dezembro).
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Quinta-feira: Vendas no Varejo (novembro); Anfavea (dezembro).
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Sexta-feira: IPC-S (2ª semana de janeiro); IBC-Br (novembro).
Estados Unidos:
No mercado norte-americano, serão divulgados
dados de vendas no varejo e índices de preços ao consumidor e ao produtor.
Também são esperados diversos pronunciamentos de membros do Fed.
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Segunda-feira (12): Discursos de Thomas Barkin e John C. Williams (Fed).
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Terça-feira (13): NFIB - Confiança do Pequeno Empresário (dezembro); CPI
(dezembro); discursos de Alberto Musalem e Thomas Barkin (Fed); Orçamento
Federal (dezembro); Venda de Novas Casas (outubro).
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Quarta-feira (14): PPI (novembro); Vendas no Varejo (novembro); Conta
Corrente (3º trimestre); discursos de Anna Paulson, Stephen I. Miran, Neel
Kashkari e John C. Williams (Fed); Venda de Casas Pendentes (dezembro).
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Quinta-feira (15): Sondagem Industrial do Fed Filadélfia (janeiro);
Pedidos de Seguro Desemprego (2ª semana de janeiro); Preços de Importações
(novembro); Índice Empire Manufacturing (janeiro); discursos de Raphael W.
Bostic, Michael Barr, Thomas Barkin e Jeffrey Schmid (Fed).
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Sexta-feira (16): Índice de Atividade de Serviços do Fed NY (janeiro);
Produção Industrial (dezembro); discursos de Michelle Bowman e Philip Jefferson
(Fed).
Europa
No mercado europeu, o foco recai sobre
indicadores de atividade industrial no Reino Unido e na Zona do Euro, além de
dados finais de inflação da Alemanha e falas de dirigentes do Banco Central
Europeu (BCE).
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Segunda-feira: Discursos de Luis de Guindos e François Villeroy de
Galhau (BCE); Sentix - Confiança do Investidor da Zona do Euro (janeiro).
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Terça-feira: Discurso de Martin Kocher (BCE).
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Quarta-feira: Discurso de Luis de Guindos (BCE).
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Quinta-feira: Produção Industrial do Reino Unido (novembro); Balança
Comercial do Reino Unido (novembro); PIB da Alemanha (anual 2025); Produção
Industrial da Zona do Euro (novembro); discurso de Luis de Guindos (BCE);
Balança Comercial da Zona do Euro (novembro).
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Sexta-feira: CPI da Alemanha (final de dezembro).
Ásia
A agenda asiática será centrada em
estatísticas econômicas do Japão, incluindo dados de comércio exterior e
pedidos de maquinário.
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Terça-feira: Conta Corrente do Japão (novembro); Balança Comercial do
Japão (novembro); Índice Econômico do Japão (dezembro).
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Quarta-feira: Pedidos de Máquinas do Japão (prévia de dezembro).
SULAMERICA INVESTIMENTOS