Cuidado, a matemática não vota.
- Resultado do segundo turno não costuma levar Bolsa a oscilações
muito fora do comum
- Estrangeiros, que respondem por 63% do volume diário negociado na
B3, não votam aqui e realizam lucro sem crise de consciência
Quem
passou a última segunda-feira (5) atualizando o home broker de cinco em cinco
minutos sabe a sensação boa que é ver o Ibovespa saltando 7,7% no primeiro
pregão após o primeiro turno. O índice, principal indicador da Bolsa, rompeu pela
primeira vez a barreira dos 200 mil pontos e fez muito investidor se
sentir um gênio.
A
tentação de muitos agora é fazer a conta mais perigosa: "Se o primeiro
turno deu 7,7% ao mostrar uma leve liderança de Flávio Bolsonaro (PL) sobre Lula (PT), uma eventual confirmação de seu
nome no dia 25 há de dar outro tanto". A história discorda.
O mercado não lê o seu grupo de WhatsApp. Ele
funciona do jeito dele, e o jeito dele costuma se repetir. Não faço previsão,
nem quero botar água no chope de ninguém. Mas é bom conhecer os caminhos antes
de se aventurar numa estrada.
Fui olhar o primeiro pregão depois de cada turno
das seis últimas eleições presidenciais, de 2002 a 2022. Depois
do primeiro turno, a Bolsa subiu cinco das seis vezes, com alta média de 2,1%.
Depois do segundo turno, entretanto, o Ibovespa caiu em quatro das seis
eleições, com queda média de 1,3%.
Só teve uma vez nesse período, em 2010, na primeira
eleição de Dilma Rousseff (PT), que o dia seguinte à
decisão final foi melhor que o da primeira votação. Foram pregões sem emoção:
altas de 0,22% contra 1,26%. Ninguém estourou champanhe.
A
eleição do pai de Flávio, Jair Messias Bolsonaro (PL), é um exemplo mais
didático. Depois do primeiro turno, o Ibovespa subiu 4,57%. Confirmada a
vitória, chegou a renovar o recorde pela manhã, mas fechou o dia em queda de
2,24%. Quem comprou na véspera esperando a festa pagou a conta do bufê.
Não
se trata de intenção de voto. É a realização de lucros de quem faz o mercado se
movimentar. O velho "compre no boato, venda no fato". O primeiro
turno é o momento da surpresa: é ali que se descobre quem está no páreo, qual
Congresso foi eleito e quanto as pesquisas erraram. São feitas as apostas.
Nas
três semanas seguintes, as pesquisas vão sendo incorporadas às cotações. Quando
a urna confirma o que já estava no preço, sobra pouca novidade para comprar e
muito lucro para realizar.
FOLHA MERCADO