Deixem a Tatiana trabalhar em paz
- Exigir experimento 'controle' com a medula acidentada dos outros é
fácil
- Os 'controles' já foram feitos: são todos os pacientes acidentados
no passado
Minha
colega Tatiana Sampaio, que agora dispensa introduções, está sendo alvo
indevido de fritura.
Não faltam opiniões dentro e fora das mídias sociais de
gente supostamente educada, inclusive neste jornal, falando do que não entende
e desacreditando uma das coisas mais sensacionais que já aconteceu na ciência brasileira, que é a descoberta
por Tatiana de uma substância, a polilaminina, que facilita drasticamente a
recuperação após lesões medulares quando injetada diretamente, e logo, no
local.
O
alvoroço sobre o qual os cientistas de poltrona se acham no direito de opinar
foi causado por Tatiana responder a uma jornalista, no programa Roda Viva, que
ela não acharia nem ético nem necessário fazer "experimentos
controle" para testar a eficácia da polilaminina como
tratamento para a recuperação após lesões medulares.
Antes de você também dar
sua opinião, vamos aos fatos.
Primeiro, sobre segurança: os primeiros estudos
concluídos indicam que a injeção de polilaminina é segura em cães, ratos e
humanos.
É claro que serão precisos centenas de pacientes humanos para dizer
isso com absoluta certeza. Como chegar lá? Injetando polilaminina na medula de
pacientes humanos, oras.
Enquanto isso, saiba que, dependendo do estudo, até
40% dos pacientes que sofrem lesões da medula espinal morrem nos primeiros anos
após a lesão, e em um estudo brasileiro, 26% dos pacientes com lesão cervical
–ou seja, no pescoço– morreram ainda no hospital.
Mortalidade elevada é
esperada: estamos tratando de pessoas que sobreviveram a acidentes graves.
Segundo, sobre o "grupo controle": o tal
"controle" para a eficácia da injeção de polilaminina é
injetar na medula lesionada literalmente qualquer outra coisa que sabidamente
não funcione. Se nada for injetado, menos de 15% dos pacientes têm alguma
recuperação espontânea.
A literatura mostra que, até hoje, entre 0 e irrisórios
16% dos pacientes injetados com outras substâncias experimentais ou que apenas
recebem cirurgia para descompressão têm recuperação de função motora. Ou seja:
esses tratamentos não funcionam.
Em comparação, outro fato: até o momento, 100% dos
pacientes no estudo piloto, mais os muitos que já receberam autorização para
tratamento compassivo com polilaminina, tiveram recuperação motora.
Deixe-me
dizer de outra forma: TODOS os pacientes que receberam polilaminina e não morreram de outras
causas tiveram recuperação de movimentos.
Tatiana e equipe não precisam fazer mais controles
injetando salina em pacientes, pois inúmeros controles já foram realizados: são
todos os outros pacientes que não receberam polilaminina até hoje.
Fazer novos
"controles" para a polilaminina significaria injetar aguinha na
medula de pacientes recém-acidentados e cheios de esperança só para coletar
estatísticas negativas para satisfazer público, revisores, controladores e
maledicentes. Isso, sim, seria antiético. Pior: seria uma grande sacanagem
quando se tem uma alternativa disponível.
Os cientistas de poltrona precisam se
colocar no lugar desses pacientes antes de abrirem a boca.
Lanço aqui minha campanha pelo uso inteligente dos
dados das pessoas corajosas e esperançosas que pedem e recebem autorização para
uso compassivo da polilaminina.
Não é campanha para a Anvisa liberar a polilaminina agora já; é
campanha para deixar a cientista trabalhar em paz.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)