Um juiz, uma garrafa de vinho e o alcoolismo
- Por trás de cenas revoltantes, muitas vezes existe alguém que já
perdeu o controle da própria vida
- É possível cobrar responsabilidade e, ao mesmo tempo, reconhecer
que talvez exista uma doença
Um
juiz. Uma garrafa de vinho. Um cigarro aceso com um maçarico. Tudo isso aconteceu durante uma audiência no
fórum de Minas Gerais. Mesmo estando em home office,
nada justifica uma cena como essa.
As imagens que circularam na internet
mostram o juiz Milton Lívio Lemos Salles bebendo vinho direto da garrafa. A
audiência foi interrompida assim que seus colegas perceberam o que estava
acontecendo.
A
cena poderia facilmente fazer parte de um filme. Mas aconteceu de verdade. E
aconteceu justamente em um lugar que exige seriedade, equilíbrio e respeito.
Um
fórum não é um bar, uma sala de estar ou qualquer outro ambiente privado. É um
espaço onde as pessoas esperam encontrar Justiça.
Quando
um juiz entra em uma audiência, ele não está ali apenas como um cidadão comum.
Ele representa uma instituição.
Por isso, uma garrafa de vinho e um cigarro
deixam de ser apenas detalhes. Naquele momento, passam a simbolizar uma quebra
da confiança que as pessoas depositam em quem tem a responsabilidade de julgar.
É claro que o caso chama a atenção e provoca
indignação. Mas acho que a discussão não deveria parar por aí. O mais
importante é entender o que aconteceu. Foi um episódio isolado? Já existiam
outros sinais de que algo estava errado? Tudo isso precisa ser esclarecido.
Também não acho correto condenar alguém apenas
pelas redes sociais. Julgamento é coisa séria. Ao mesmo tempo, se realmente
existem relatos de que esse comportamento não foi um fato isolado, eles
precisam ser investigados.
O que mais me chamou a atenção, porém, foi outra
coisa.
Será que estamos diante apenas de um homem que fez
algo absurdo? Ou de alguém que pode estar doente?
Não sei se esse juiz sofre de alcoolismo. Ninguém
pode fazer um diagnóstico olhando um vídeo. Mas quem convive com essa doença
sabe que ela costuma aparecer justamente assim: quando a pessoa já perdeu
completamente a noção do que é aceitável.
Ela não escolhe profissão, cargo ou
condição social. Pode atingir qualquer um.
Particularmente, fiquei com pena dele. Ao longo dos
anos, acompanhei muitas pessoas em reuniões de Alcoólicos Anônimos e aprendi
que, por trás de cenas que parecem apenas revoltantes, muitas vezes existe
alguém que já perdeu o controle da própria vida.
Isso não significa que ele não deva responder pelos
seus atos. Deve, como qualquer outra pessoa. Mas uma coisa não impede a outra.
É possível cobrar responsabilidade e, ao mesmo tempo, reconhecer que talvez
exista uma doença por trás de tudo isso.
Espero sinceramente que ele receba ajuda.
E espero também que esse episódio sirva para
lembrar uma coisa que muita gente ainda insiste em ignorar: o alcoolismo não
destrói apenas a vida de quem bebe.
Ele destrói famílias, carreiras e pode
atingir até mesmo pessoas que ocupam cargos dos quais esperamos o máximo de
equilíbrio e responsabilidade.
ALICE S. | blog Vida de
Alcoólatra