IA vai inundar o serviço público como um tsunami
- Nos EUA, casos civis feitos sem advogado subiram de 11% para 17% e
petições chegam a ter 600 páginas
- Estudo em 166 países mostra que, quando o usuário usa a IA para
tentar resolver sua questão, setor não consegue atender
O
uso da inteligência artificial vai afogar o
serviço público com a força de um tsunami. Isso já é visível hoje em vários
países. Como a IA facilitou redigir petições e recursos administrativos,
órgãos públicos estão ficando assoberbados com a quantidade de demandas que
recebem.
Na
Inglaterra, as escolas relatam aumento de reclamações de pais
redigidas por IA. Pedidos de acesso à informação subiram 60% de 2022
a 2025. No órgão que supervisiona a polícia, ao menos um quarto dos pedidos de revisão judicial já é feito com IA.
Nos
EUA, o Judiciário já está sendo tomado pela inteligência artificial. Casos
civis feitos sem advogado subiram de 11% para 17%.
Petições que antes chegavam
com duas páginas agora chegam a ter 600, feitas por IA. Um juiz classificou o
fenômeno como "ameaça existencial" aos tribunais.
Na
Alemanha, o Judiciário do estado mais populoso relata aumento de 55% nos
processos de urgência, em parte com petições feitas com IA.
A tendência é
nacional. Em alguns órgãos administrativos, há expectativa de fechar 2026 com
volume de recursos até 50% acima de 2022.
Muitas
dessas demandas citam leis erradas, precedentes que não existem, teorias legais
inventadas. Gerar uma petição ou um recurso administrativo ficou muito barato.
Só que analisar tudo continua caro e dependente de humanos. Em suma, a IA não
só entope o setor público, mas transfere a ele um custo enorme.
Diante
disso, o que fazer? O primeiro ponto é que há um aspecto positivo. Pessoas que
nunca tiveram acesso ao serviço público agora passam a tê-lo usando IA. Parte
desse fenômeno consiste na ampliação do acesso à Justiça e à administração
pública, o que é positivo.
No
entanto, o serviço público está despreparado para o tsunami. O diagnóstico do
despreparo pode ser lido no estudo de integrantes do Banco Mundial publicado em
julho de 2026, co-liderado pelo brasileiro Tiago Peixoto, chamado Radar (sigla
para Readiness for AI Discoveryand Agentic
Reach), do qual sou um dos contribuidores.
O
estudo analisou 166 países medindo os dois lados da moeda: se uma IA consegue
informar corretamente o cidadão sobre um serviço público e se um agente de IA
consegue chegar ao serviço e navegá-lo para resolver a questão.
Cada
vez mais gente terá o primeiro contato com o serviço público por meio de uma
IA. Em vez de acessar sites governamentais para renovar sua carteira de
motorista, o cidadão pedirá ajuda para a IA.
O
estudo constata que as plataformas de IA analisadas são bastante capazes na
descrição dos serviços públicos nos 166 países. O problema vem a seguir: quando
o usuário usa a IA para tentar resolver sua questão, o setor público está
despreparado para atender.
A
consequência é clara. O serviço público precisará se transformar por causa da
IA ou será afogado por ela. E, em breve, correremos o risco de estarmos usando
IA de um lado como cidadãos e, do outro, uma IA (talvez a mesma) estará
processando nossas demandas no Judiciário e no serviço público.
RONALDO LEMOS | advogado, diretor do Instituto
de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro