Fortalecendo a musculatura para uma Longevidade
Produtiva e Contributiva
As palavras de um experiente
médico de UTI, que acompanhava meu pai no início deste ano, ficaram comigo. Ao
comentar sobre a recuperação dos pacientes, ele disse:
“Quando ficamos mais
velhos, é fundamental reduzirmos o peso ruim enquanto levantamos mais peso bom.
Músculos fortes são fundamentais para acelerar a recuperação. Mas esses
músculos devem ser construídos muito antes de serem necessários”.
A reflexão não se aplica apenas
à saúde física. Ela também serve para pensarmos sobre o futuro, o
envelhecimento e a preparação para as próximas décadas de vida.
Com sorte e,
principalmente, com boas escolhas, viveremos mais do que nossos pais e avós.
Mas
viver mais não é o suficiente. O verdadeiro desafio é viver com autonomia,
propósito, capacidade de contribuir e liberdade para fazer escolhas.
Voltando à metáfora do médico, é
importante reduzir os pesos que limitam nossa trajetória e fortalecer os
músculos que sustentarão nosso futuro.
Reduzir o peso significa, por exemplo,
adequar nosso padrão de vida à realidade financeira que teremos mais adiante.
Os gastos de hoje nem sempre serão compatíveis com a renda de amanhã, e fazer
ajustes exige tempo, persistência e planejamento.
Já o “peso bom” representa tudo
aquilo que construímos para fortalecer nossa capacidade de enfrentar os
desafios futuros. No campo financeiro, isso significa desenvolver um patrimônio
capaz de gerar renda e segurança ao longo do tempo, por meio de investimentos,
imóveis, negócios ou outras fontes de recursos.
Mas quais são os músculos que
realmente sustentam uma vida longa, autônoma e significativa? Mais do que
músculos físicos, trata-se de quatro pilares fundamentais.
Saúde e Bem-estar
A saúde na maturidade vai além
da ausência de doenças. Ela está diretamente ligada à capacidade de manter
autonomia e qualidade de vida.
Esse pilar envolve tanto a saúde física quanto a
mental e cognitiva. Afinal, viver é diferente de apenas estar vivo. Para
aproveitar as décadas adicionais que teremos pela frente, é fundamental
cultivar hábitos saudáveis, praticar atividades físicas, cuidar da mente e
investir em prevenção.
Outro aspecto importante é
pensar na mobilidade e na adaptação da vida às diferentes fases do
envelhecimento. Onde morar, como se locomover e quais atividades desejamos
continuar realizando são questões que merecem planejamento.
Não por acaso, iniciativas como
as “Cidades Amigas da Pessoa Idosa”, da Organização Mundial da Saúde, vêm
ganhando espaço ao redor do mundo.
No Brasil, também surgem movimentos como o
Selo Acolhe, da Fundação Vanzolini, voltados a reconhecer organizações e
ambientes mais confortáveis, acessíveis e seguros para a população idosa.
Em
paralelo, arquitetura, design e tecnologia passam a ressignificar residências,
produtos e espaços urbanos, promovendo mais autonomia e qualidade de vida ao
longo dos anos.
Capital Social
Os relacionamentos são um dos
ativos mais valiosos para uma vida longa e satisfatória. Diversos estudos e
especialistas destacam a importância das conexões humanas para o bem-estar.
No
entanto, o envelhecimento frequentemente vem acompanhado de aumento da solidão,
muitas vezes de forma involuntária.
Por isso, investir
intencionalmente em amizades, laços familiares, redes de apoio, hobbies e
atividades comunitárias é essencial. Prosperidade não se resume ao patrimônio
acumulado. Ela também depende da qualidade das relações que construímos e
mantemos ao longo da vida.
Fortalecer vínculos, participar
de comunidades e estimular relações entre diferentes gerações são formas
importantes de desenvolver esse pilar.
Carreira e Conhecimento
Carreira não é sinônimo de
emprego. Nunca foi. À medida que a longevidade aumenta, torna-se cada vez mais
importante enxergar a carreira de forma ampla, incluindo novas possibilidades
de atuação, aprendizado, mentoria, consultoria e reinvenção profissional.
O aprendizado contínuo é um dos
grandes diferenciais de quem deseja envelhecer com propósito. Aos 50, 60 ou 70
anos, ninguém recomeça do zero. Recomeça com experiência, repertório,
relacionamentos, conhecimento acumulado e autoconhecimento.
Manter-se intelectualmente ativo
ajuda a preservar a saúde cognitiva, amplia oportunidades e fortalece o senso
de contribuição para a sociedade.
Capital Financeiro
O capital financeiro é o pilar
que apoia todos os demais. Ele oferece os recursos necessários para cuidar da
saúde, investir em desenvolvimento pessoal, cultivar relacionamentos e
preservar a autonomia ao longo da vida.
Construir reservas, acompanhar investimentos
e planejar o uso do patrimônio são atitudes fundamentais para garantir
segurança e liberdade de escolha no futuro.
O desafio, porém, não é apenas
acumular recursos. No livro “Previdência é Coisa de Família”, escrevi que, no
caso da poupança previdenciária, de que adianta juntar uma bela quantia sem
saúde para aproveitá-la, sem pessoas com quem compartilhá-la ou sem equilíbrio
emocional e espiritual para dar sentido a ela?
A verdadeira prosperidade é mais
ampla. Ela nasce do equilíbrio entre recursos financeiros, saúde,
relacionamentos e propósito.
O futuro é treinado
Há uma lição poderosa na fala
daquele médico: os músculos necessários para a recuperação não são construídos
dentro da UTI.
Da mesma forma, os pilares que sustentarão nossa autonomia,
nossos relacionamentos, nosso propósito e nossa segurança financeira não serão
construídos quando finalmente precisarmos deles. Eles estão sendo construídos
agora.
Em cada hábito que cultivamos, em cada escolha que fazemos e em cada
decisão que tomamos.
Talvez seja justamente essa a
principal mensagem da longevidade: desenvolver hoje a musculatura que
sustentará o amanhã.
Como escreveu Clarice Lispector, “como começar pelo início
se as coisas acontecem antes de acontecer?”. O futuro que desejamos viver começa
muito antes de chegar. O futuro não acontece de repente. Ele é resultado de
preparação, disciplina e intenção.
CRISTIANO VERARDO | diretor da Vexty, porta-voz do projeto Previdência é Coisa de
Jovem e especialista da UniAbrapp.