Os mimos da infância, a ausência de frustrações e
os impactos nas relações
- Pessoas muito mimadas em casa podem ter grandes dificuldades para
lidar com limites e perdas
- Conflitos também emergem nas relações a dois, um campo bem mais volátil do que o ambiente familiar
Será que pessoas muito mimadas e, por consequência,
com certa dificuldade para lidar com as frustrações em variados aspectos da
vida, sofrem algum impacto nas relações amorosas e sexuais?
Mais do que isso:
como será que essa história de mimos e (ausência de) frustrações podem
interferir nos prazeres a dois? Vamos responder a essas questões por partes e
com calma.
A resposta à primeira pergunta é sim: quem tem
dificuldade para lidar com frustrações nos mais variados aspectos da vida vai,
obviamente, sofrer impacto nas relações amorosas e sexuais. Esse impacto
costuma ser, digamos, bem significativo.
Já a segunda pergunta exige uma resposta mais
detalhada. A pessoa que passou a vida inteira sendo muito mimada em casa, sem
enfrentar frustrações (pequenas nem grandes), especialmente na infância e na adolescência, pode ter grandes dificuldades
para lidar com:
a) Limites. Fica difícil, por exemplo, aceitar não
como resposta. Em casos como esse, ouvir frases como "Não estou a fim de
sexo hoje", ou "Não estou tão a fim de você", ou "Tenho
outros planos para o final de semana, que não incluem você" podem causar
reações das mais variadas e dramáticas possíveis, incluindo demonstrações
exageradas de birra, descontrole e raiva.
Bem parecido como as reações de filhas
e filhos mimados em embates com os pais. Só que, dessa vez, os conflitos
emergem nas relações a dois, um campo bem mais volátil do que o ambiente
familiar.
b) Perdas. Assim que os conflitos amorosos e
sexuais começam, os desentendimentos podem levar rapidamente a breves
afastamentos e/ou separações definitivas.
E a perda dessa relação amorosa e
sexual pode gerar mais birra, mais descontrole, mais raiva, entre outras
emoções e sentimentos negativos, dificultando o caminho de aprendizados e
crescimento que toda relação pode nos trazer.
Ou seja, a pessoa permanece
inserida em um cenário em que não consegue amadurecer. Fica, mais uma vez, como
filha ou filho mimado, se lamentando e apontando culpas e responsabilidades nas
outras pessoas, nunca em si.
Esses são apenas alguns pontos significativos,
entre muitos outros que podem emergir daí, a se levar em conta. E o que fazer
para virar esse jogo?
Um primeiro passo é começar a entender que cada
pessoa é de um jeito, com erros e acertos, altos e baixos, qualidades e
defeitos. E tudo isso, ou seja, o jeito único de ser de cada um, deve sempre
ser, no mínimo, respeitado.
O que quero dizer é que todos temos possibilidades
e limitações. Todos temos desejos e expectativas também, e nem tudo será
atendido e realizado prontamente. Para manter relacionamentos amorosos e
sexuais (e conviver em sociedade) há que se lembrar disso.
Há que lembrar também que ninguém é o centro do
universo e o único merecedor de aplausos (e mimos). Há que aprender também
a se colocar no lugar da outra pessoa, e não
apenas esperar e exigir tudo para si.
E seguir amadurecendo e evoluindo por
esse caminho. Assim, a troca de carinho e de afeto sai ganhando. As relações
amorosas e sexuais (e outras tantas mais) também.
LAURA MULLER - psicóloga clínica,
comunicadora e especialista em educação sexual.