É IA ou não é?
- Rostos criados por IA parecem particularmente reais para
muitos humanos
- Habilidade em diferenciar
rostos reais de IA depende de flexibilidade visual
Minha
mãe vive no Facebook, e eu vivo tentando tirá-la de lá.
Começou como uma coisa saudável, de fato social, onde ela, socióloga
recém-aposentada, interagia com novos colegas em novas paragens que ela não
descobriria de outra forma.
Para ela não ficar se sentindo isolada sob meu dedo
acusatório, meu marido é outro que não larga do diabo da plataforma.
O uso dele
também é até certo ponto saudável: é como ele de fato mantém contato com seus
amigos espalhados mundo afora, feitos em uma carreira global.
Mas
os dois sucumbem facilmente à tentação de ficar rolando telas sem fim.
Minha
mãe nos bombardeia com links incessantes para vídeos com dicas disso e daquilo.
Eu preferiria mil vezes que ela nos contasse diretamente sobre o que aprendeu.
Daquela forma como as pessoas costumavam conversar e contar casos face-a-face,
lembra como era?
Os
outros links que ela nos manda são de aves variadas. Tudo bem, essas têm que
ser mostradas mesmo numa conversa.
Mas eis o problema: a maioria não é real, é
criada por IA. O mesmo hoje em dia se aplica a humanos.
Que lindo: aprendemos a
nos excluir da equação (Preciso avisar que é ironia? Está avisado, por via das
dúvidas). Nem precisamos mais aparecer na frente da câmera, pois tanto imagens
estáticas como em movimento já podem ser criadas por IA.
As
consequências para um mundo que já era assolado por mentiras descaradas (fake
news é o cacete!) são terríveis, porque agora as mentiras têm cara —e os
estudos mostram que elas são com frequência mais do que críveis: são
hiper-realistas, mais convincentes como humanas do que rostos humanos.
Minha
colega de departamento na Universidade Vanderbilt, Isabel Gauthier, é
especialista em reconhecimento visual e está estudando o fenômeno.
Dado um par
de rostos, um real e outro criado por IA, ela descobriu que a habilidade humana
de detectar qual é qual depende do que ela chama de "O", que é a
"habilidade generalizada de reconhecer objetos", mensurável e
característica de cada pessoa.
Isabel
descobriu que indivíduos com O baixa caem fácil na armadilha do hiper-realismo.
Curiosamente, eles são muito bons em separar rostos reais de rostos criados por
IA —mas consistentemente acham que o rosto gerado por IA é o humano.
Ao
contrário, indivíduos com O alta são consistentemente bons em fazer a distinção
e identificar como tal o rosto gerado por IA.
A diferença parece vir de um apego inflexível a
detalhes das pessoas com O baixa, que as torna presas das características
humanas exageradas pela IA.
Pessoas com O alta, ao contrário, têm flexibilidade
e empregam critérios diferentes quando avaliam imagens diferentes, o que as
liberta das garras dos algoritmos enganadores.
Qual dos dois você é? Qualquer que seja a resposta,
fica a dica: você sempre pode se convidar a olhar de novo e tentar pensar
diferente.
Ou, quem sabe, sair do Facebook e conversar com pessoas de verdade,
que os seus sentidos atestam que são reais.
Pelo menos os cães dinamarqueses bobões adoráveis
que meu marido segue no Facebook provavelmente ainda são reais.
Pena que o
humaninho bonitinho que fala com um deles está sendo claramente treinado para
atuar para a câmera. Quando não é inteligência artificial, é realidade
artificial. Em que mundo vivemos...
SUZANA HERCULANO-HOUZEL - bióloga e
neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA).