Empresa demite 4.000 por causa da IA e ações
disparam 20%
- Inteligência artificial está assumindo tarefas corporativas
complexas que antes exigiam equipes inteiras
- Conceito de 'PIB fantasma' resume cenário em que produção cresce,
mas dinheiro não circula mais pelas famílias por perda de emprego
Os acontecimentos da semana passada deram uma
amostra do tamanho da ansiedade dos mercados com relação ao avanço da inteligência artificial. Na quinta-feira (26),
a empresa de pagamentos Block demitiu 4.000 pessoas, 40% da sua força de
trabalho. Motivo anunciado: inteligência artificial.
As ações dispararam 20%.
Para entender como isso aconteceu, é preciso voltar alguns dias.
No dia 22 de fevereiro, uma empresa de pesquisa
econômica praticamente desconhecida, chamada Citrini, publicou um artigo sobre
o impacto econômico da IA de hoje até 2028.
Na segunda (23), vários dos setores analisados no
texto desabaram.
A IBM caiu 13% com o temor de que parte dos seus serviços
possa ser feita por IA. Perdeu US$ 31 bilhões, sua pior queda diária
desde 2000. Empresas de software corporativo e serviços também desabaram, como
a gigante SAP e empresas indianas, seguidas pela Accenture.
Os setores de
delivery, transporte por aplicativo e finanças também foram afetados.
Desde janeiro, o pano de fundo por trás do texto já
tinha começado a se desenrolar. Empresas de inteligência artificial estão
ingressando no mercado corporativo. Tarefas complexas que antes exigiam times
organizados e bem-informados agora começam a ser realizadas por IA.
O relatório da Citrini aponta que a IA está se
tornando eficiente no manejo de habilidades corporativas tradicionais: gestão
de projetos, organização de relatórios, planilhas, rotinas, análises jurídicas,
contábeis, apresentações, design e, sobretudo, programação.
Em 2028, boa parte do trabalho será feito usando
agentes de IA. Da mesma forma, software complexo poderá ser feito com comandos
claros dados para uma IA em português (ou qualquer outra língua).
A Citrini criou a partir disso o conceito de "PIB fantasma". A produção econômica cresce, mas o
dinheiro não circula mais pelas famílias, porque muitos dos empregos serão
eliminados.
A participação do trabalho no PIB em 2028 cairia dos atuais 56%
para 46%. O dinheiro que circulava como salário ficaria retido na empresa como
lucro, descontado o gasto com IA.
Quatro dias depois do relatório, a empresa Block
(que opera a Square), fundada por Jack Dorsey, o criador original do Twitter,
decidiu fazer exatamente o movimento que o artigo descreveu. Na quinta, ele
anunciou publicamente que estava demitindo 40% dos funcionários (4.000 pessoas)
de uma vez.
No anúncio, ele diz aos acionistas que "ferramentas de
inteligência artificial mudaram o que significa construir e administrar uma
empresa hoje".
O mercado premiou a empresa, com suas ações subindo
20% na sequência. Isso mostra que a análise da Citrini vai além da mera
especulação. Se esse padrão se consolidar, é possível que o movimento se
repita. Estamos entrando em um território de ainda mais incerteza. A era da
ansiedade está entre nós.
RONALDO LEMOS - advogado,
diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro