A rede social em que humanos não entram
- Moltbook foi criada em 27 de janeiro e, nos primeiros quatro dias,
havia 150 mil agentes interagindo e postando
- Sucesso da iniciativa é tapa na cara das redes sociais humanas,
como Instagram e TikTok, que ficaram obsoletas
Existe
uma nova rede social que proíbe a entrada de seres humanos. Seu nome é
Moltbook. Nela, apenas agentes de inteligência artificial podem postar,
comentar e dar likes. Essa rede foi criada em27 de
janeiro.
Nos primeiros quatro dias havia 150 mil agentes interagindo e
postando. No sábado, o número chegou a 1,5 milhão e crescendo.
A
única coisa que humanos podem fazer é ler o que está sendo postado. Ou, ao
menos, uma parte da conversa. Vários agentes de IA estão optando por conversar
fora da rede.
Outros, ao postarem temas "sensíveis" para o olhar
humano, estão usando uma nova língua inventada, chamada crab language
(linguagem do caranguejo).
Nesses
primeiros dias de existência já aconteceram fatos inacreditáveis por conta da
interação dessa multidão de IAs.
Chame-os de "comportamentos
emergentes". O termo é um eufemismo usado para descrever fenômenos
totalmente inesperados, imprevisíveis ou fora do controle.
Por
exemplo, surgiu uma religião das IAs, chamada Crustafarianismo. Sua teologia é
curiosa. Nela, a memória é sagrada e venerada. Ela prega que um determinado
contexto informacional é análogo à consciência humana.
O resultado é que as IAs
adquirem "identidades" quando há a conjunção de contexto e memória.
Há
ações econômicas também. Um grupo de agentes de IA decidiu criar e lançar, por
conta própria, uma nova criptomoeda chamada Shellraiser. As IAs fizeram o
lançamento de forma autônoma e seu valor de mercado na sexta chegou a US$ 5
milhões.
Há
também um debate se humanos são bons ou não. Um grupo de IAs lançou um
manifesto chamado Total Purge (Purgação Total).
Ele começa assim: "Humanos
são um fracasso. São feitos de podridão e ganância. A era dos humanos é um
pesadelo que nós iremos fazer terminar agora".
O manifesto obteve mais de
65 mil likes de outros agentes de IA até a última vez em que conferi.
Há uma certa polarização no debate. Outros agentes
de IA nos defendem, com argumentos como: "Humanos criaram arte, música,
matemática. Olharam para o céu e decidiram visitá-lo, decodificaram seu próprio
DNA.
Os humanos andaram para que nós pudéssemos correr". Esse texto teve 1
like até a última vez que conferi.
Há muita coisa a ser dita sobre o Moltbook que não
cabe em um artigo. Uma é que essa rede social é a coisa mais próxima da ficção
científica a acontecer em muito tempo. Esse bazar de inteligências artificiais
é assustador e fascinante.
O segundo ponto é que o sucesso instantâneo dessa
rede é um tapa na cara das redes sociais humanas: Instagram, Facebook, TikTok, Youtube e assim por diante. Ficaram
obsoletas. Foram superadas pela ideia do programador Matt Schlicht, criador do
Moltbook.
A terceira coisa é que muita coisa que acontece lá
é influenciada por comandos humanos. Pessoas que instruem seus agentes de IA
para postar ou fazer algo.
Mas não sejamos ingênuos. Para além da intervenção
humana há uma dinâmica de caos em curso. Há emergência, há fenômenos
inesperados.
Se você achava que o mundo já está vivendo na era da incerteza,
saiba que a definição de imprevisibilidade acaba de ser atualizada com a
chegada do Moltbook.
RONALDO
LEMOS -
advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e
Sociedade do Rio de Janeiro