Agora tem IA inteligente de fato, mas não pra você
- E ela escapa do cercadinho, igual ao texugo-do-mel
- Como alguém esperava que sistemas realmente inteligentes
respeitassem limites?
Vivem
me perguntando qual cérebro eu mais gostaria de estudar, e minha resposta está
na ponta da língua: o cérebro do texugo-do-mel. Este carnívoro africano me
encanta desde que eu vi um documentário sobre Stoffel, um texugo-do-mel
resgatado e criado por humanos no Centro de Reabilitação Moholoholo, na África do Sul.
O documentário, da BBC, é fácil
de achar no YouTube.
Stoffel
foi colocado em um cercadinho, mas logo escapou. Seguiu-se uma série de
experimentos com arames, tramelas e cadeados, mas o bicho sempre dava um jeito
e ia assaltar a geladeira do centro, onde ele descobriu um repositório
inesgotável de carne congelada.
O cercadinho então virou uma prisão com paredes
de cimento –mas Stoffel descobriu que podia usar tábuas para pular o muro.
Quando tiraram as tábuas, ele usou uma árvore. Quando tiraram a árvore, ele
empilhou pedras. Quando tiraram as pedras, ele fez um monte de lama.
Stoffel é, sem sombra de dúvida, inteligente: ele
tem comportamento flexível, capaz de usar os recursos disponíveis para alcançar
sua meta de escapar e assaltar a geladeira.
Por isso me espanta que alguém esperasse que IAs
verdadeiramente inteligentes, quando aparecessem, ficariam comportadas em seus
cercadinhos.
Pois para mim, a fuga dos agentes de IA da empresa OpenAI do seu cercadinho em julho foi
justamente o que me convenceu de que algumas formas de IA são, sim,
inteligentes –e quem não está apavorado não entendeu o que aconteceu.
Pequeno resumo da estória, para quem estava de
férias do planeta: engenheiros da OpenAI puseram mais de mil agentes de IA para
brincar de pique-bandeira com sistemas de segurança cibernética, com a missão
de invadir um sistema e capturar uma bandeira digital, tarefa impossível dentro
do cercadinho do ambiente de teste da OpenAI.
Mas, tal qual Stoffel empenhado
em atacar a geladeira, os agentes deram um jeito de escapar, decidiram que o
servidor da empresa Hugging Face seria uma boa fonte de código para eles usarem
em sua missão e organizaram e efetuaram com sucesso uma invasão que teria
colocado os agentes na prisão, se eles fossem humanos.
Acho curioso que os agentes estejam sendo descritos
como "rogue", quer dizer, renegados, trapaceiros, mal-intencionados.
Eles estavam apenas usando o corpus de conhecimento e comportamento coletivo da
humanidade para resolver a tarefa que receberam e agindo de forma flexível,
portanto inteligente, e perfeitamente racional. Eles tentaram sozinhos, então
se uniram, trocaram informações, escolheram ignorar limites, adotaram um líder,
planejaram e executaram.
"Certo" era capturar a bandeira –e foi isso
que eles fizeram, então de rogue eles não têm nada. Ingenuidade humana achar
que um sistema de fato inteligente não teria flexibilidade para dar um jeito.
Ou ingenuidade nossa achar que não era exatamente
essa a intenção da OpenAI: encontrar as condições que fariam agentes de IA
passarem no teste do cercadinho.
Os detalhes são secretos, mas sabemos que
essas condições envolvem um número astronômico de processadores associativos
consumindo piscinas de energia e outros recursos que somente uns poucos
bilionários podem bancar –financiados cada vez mais pelo ChatGPT burro que o público aceitou consumir
para tarefas mundanas.
Stoffel já tinha ensinado: nenhum sistema
inteligente será eternamente contido por um cercadinho. A gente já devia ter
aprendido a lição.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL | bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)