Como a inteligência artificial pode levar
astrônomos à descoberta de galáxias
- Inteligência artificial ajuda cientistas a identificar padrões em
dados novos e antigos
- Em Oxford, assistente virtual distingue sinais causados por
supernovas
Na Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em
inglês), David O'Ryan e Pablo Gómez descobriram centenas de novos objetos
astronômicos no vasto arquivo de imagens transmitidas à Terra pelo Telescópio
Espacial Hubble nos últimos 36 anos.
Usando uma rede neural chamada AnomalyMatch,
treinada para detectar padrões incomuns, eles encontraram uma infinidade de
galáxias, com formas peculiares que não haviam sido observadas anteriormente na
inspeção manual dos dados do Hubble.
"É claro que as pessoas olham para a
empolgante nova geração de telescópios que está entrando em operação, mas esse
trabalho mostra como a IA pode aumentar o retorno científico de conjuntos de
dados arquivados", diz Gómez. "Eles são verdadeiros tesouros nos
quais ainda podemos encontrar coisas muito empolgantes."
Na Universidade de Oxford, a física Héloïse
Stevance liderou o desenvolvimento de um assistente virtual de pesquisa baseado
em IA. Isso reduziu em 85% a quantidade de verificação visual humana necessária
para distinguir os raros sinais genuínos causados por supernovas —explosões
ultrapotentes de estrelas moribundas— entre centenas de alertas recebidos
diariamente do Atlas, uma rede de cinco telescópios terrestres que vasculham o
céu em busca de eventos de alta energia em galáxias distantes.
"A verificação manual levaria várias horas por
dia", afirma Stevance. "Graças à nossa nova ferramenta, podemos
liberar o tempo dos cientistas para a resolução criativa de problemas e para
questionamentos sobre a natureza do nosso Universo. É o equivalente astrofísico
de ter um robô lavando sua roupa para que você possa se concentrar na sua
arte."
Na Universidade de Birmingham, Guy Davies, que
estuda o comportamento e a estrutura das estrelas, usa emuladores de IA para
ajudar a interpretar observações de telescópios. "Em grande parte do
trabalho que faço, nosso maior desafio não é tanto obter os dados, mas
construir modelos de evolução estelar rápido o suficiente para conseguir
entender o que estamos vendo nos dados", afirma.
"Conseguimos pegar uma rede neural e ensiná-la
a simular modelos complexos de evolução estelar", acrescenta Davies.
"O treinamento pode levar semanas ou meses, mas, uma vez treinada,
conseguimos avaliar um modelo em menos de um milissegundo."
Sua colega de Birmingham, Anjali Piette depende de
emuladores para pesquisas sobre as atmosferas de planetas além do nosso Sistema
Solar. "Se vemos um sinal no espectro de um exoplaneta, que podemos
atribuir a uma molécula específica, queremos saber por que ele está lá",
diz ela. "Queremos usar todas as informações detalhadas do espectro para
conectá-las a diferentes processos específicos que podemos modelar. Descobrir o
porquê envolve conectar os modelos e os dados."
Esses exemplos —fazer novas descobertas em arquivos
científicos, detectar sinais significativos em dados recebidos e construir
modelos para dar sentido às observações— ilustram algumas das formas como os
astrônomos estão utilizando a IA enquanto se preparam para um maior fluxo de
dados em decorrência de uma nova geração de telescópios no espaço e em terra.
A maior torrente de observações virá do novo Observatório Vera Rubin, no Chile, que
inclui um telescópio de 8,4 metros e uma câmera digital de 3 bilhões de pixels,
a maior já construída. Ele capturará uma imagem a cada 30 segundos durante dez
anos, criando um registro em time-lapse ultra-amplo e de alta definição do céu do
hemisfério sul —"o maior filme astronômico de todos os tempos", como
o observatório o descreve.
A Fundação Nacional de Ciência dos EUA criou o Instituto de IA
NSF-Simons para o Céu (SKAI Institute) em Chicago para desenvolver novas
ferramentas de IA capazes de detectar tesouros científicos nos dados do Rubin.
Os astrônomos esperam descobrir uma infinidade de objetos, como asteroides e
cometas, estrelas, explosões de supernovas e outros tão inéditos que ainda nem
têm nome.
Supercomputadores e processamento intensivo não são
necessários para explorar a IA na astronomia.
"O surpreendente é quão poucos dados foram
necessários", diz Stevance sobre seu Assistente de Pesquisa Virtual.
"Com apenas 15 mil exemplos e o poder de processamento do meu notebook,
consegui treinar algoritmos inteligentes para fazer o trabalho pesado e
automatizar o que costumava levar horas de trabalho humano por dia.
Com
orientação especializada, a IA pode transformar a descoberta astronômica sem
exigir enormes conjuntos de dados ou poder computacional."
Gómez fez um comentário semelhante sobre o projeto
da Agência Espacial Europeia para explorar o arquivo do Hubble com IA.
"Temos um algoritmo muito eficiente", diz ele. "Ele rodou em uma
única GPU [unidade de processamento gráfico] em poucos dias.
Não estamos na
escala de usar 100 mil GPUs queimando gigawatts de energia. Se escolhermos os
métodos e entradas certos, como uma ferramenta de IA eficiente com anotações de
especialistas, ainda podemos ser sustentáveis."
De modo geral, os astrônomos estão usando
ferramentas de IA mais especializadas do que a IA generativa e os grandes
modelos de linguagem de empresas como Anthropic e OpenAI que capturaram a
imaginação do público.
"Você precisa de um sistema de uso geral para
responder a uma pergunta específica em astronomia?", questiona Gómez.
"Em muitos casos, não."
Enquanto os astrônomos continuam a desenvolver e
usar ferramentas especializadas para suas pesquisas, a IA generativa vai
melhorar sua eficiência, afirma Amaury Triaud, outro especialista em
exoplanetas da Universidade de Birmingham.
"Por exemplo, ela vai nos
ajudar a projetar interfaces de usuário para nossos instrumentos, trabalhar
online com colegas ao redor do mundo e também realizar trabalhos complexos nos
sistemas ópticos dos telescópios —alinhando espelhos, focando e rastreando sua
estrela."
CLIVE
COOKSON | Jornal Financial Times