Como escolhemos pratos no restaurante
Richard
Feynman foi um dos físicos mais importantes do século 20.
Em
1970, após receber o Prêmio Nobel, ele foi com um amigo, Ralph Leighton, a um
restaurante tailandês chamado Indra, na Califórnia.
Costumavam
ir lá depois do trabalho.
O
amigo disse não saber o que escolher. “Sempre escolho o frango com gengibre,
que adoro, mas será que deveria tentar outro prato?” Se escolhesse o frango com
gengibre, corria o risco de nunca descobrir um prato ainda melhor.
Mas,
se escolhesse um prato novo, poderia se frustar caso fosse pior que o frango.
Ou até se surpreender ao descobrir um novo prato preferido. Qual a decisão
correta? Arriscar um novo prato ou garantir o frango com gengibre?
Feynman
lembrou que o amigo deveria ter entrado pela primeira vez no restaurante sem
saber o que escolher e descobriu o frango com gengibre por acaso. Se tivesse
ido lá muitas vezes, ao final conheceria todos os pratos e, desse momento em
diante, escolheria sempre o que mais o apetecia.
Mas
como, ao longo das diversas idas ao restaurante, eles deveriam se comportar?
Em
que momento a curiosidade por pratos novos deveria dar lugar à escolha
constante de um mesmo prato?
Qual
o comportamento ideal para garantir o máximo de prazer ao longo das visitas ao
restaurante?
Feynman
pegou um guardanapo e, em poucos minutos, escreveu uma teoria sobre como essa
decisão deveria ser tomada para maximizar a felicidade gustativa, a partir do
número de visitas que já haviam feito ao restaurante e de quantas ainda fariam
até terminar o livro que estavam escrevendo (o famosíssimo The Feynman Lectures
On Physics).
O
amigo guardou o guardanapo e fizeram a escolha.
Agora,
um grupo de cientistas recuperou o guardanapo, desvendou os garranchos da
solução proposta por Feynman, confirmou que está correta, e testou se os seres
humanos se comportam como previsto na teoria. Foram recrutados 2.520
voluntários, que visitaram um número fixo de vezes um restaurante virtual onde
deveriam escolher um prato no menu.
Após
o prato virtual ser escolhido, era revelado um número correspondente a quão bom
ele era.
Maior
o número, melhor o prato. Ao longo das visitas, eles podiam escolher o prato
que quisessem, mas o objetivo era que acumulassem o maior número de pontos
possível.
Se
descobrissem um prato com nota alta, poderiam voltar sempre a esse prato ou
arriscar um novo.
É
exatamente o dilema dos frequentadores de restaurante.
O
que os cientistas descobriram é que seres humanos se comportam como previsto
pelo modelo.
Ou
seja, sem saber a solução que matematicamente garante a melhor escolha, os
seres humanos, utilizando seu cérebro, de maneira intuitiva e inconsciente, se
comportam como é predito pelo modelo de Feynman. Pense bem, isso é
impressionante.
FERNANDO
REINACH –
biólogo, PhD em biologia celular