Estabilidade em alta velocidade não é ficar parado
- Que curling, que nada: esporte olímpico peculiar mesmo é a versão
adulta do escorrega
- Tobogã olímpico exige formar modelos internos das menores ações
Enquanto
o controle remoto é só meu, eu assisto aos replays das competições de
patinação, de esqui, de snowboard nas Olimpíadas de Inverno. Parece que o meu
encanto é pelo desafio à gravidade com saltos, piruetas e giros em pleno ar.
Aí
chega meu marido, estadunidense que cresceu calçando lâminas sob os pés, e
assume o controle, me fazendo companhia enquanto eu termino de preparar a aula
do dia seguinte.
A programação dele é hóquei, que ele jogou quando criança, e
versões diferentes do tobogã, cujo encanto eu nunca tinha entendido. Descer a
mais de cem por hora por um cano congelado, agarrado na caminha frágil do luge
que oferece zero proteção, com os pés para a frente, ou pior ainda, oferecendo
a cabeça para bater primeiro contra as paredes, no skeleton?
Nem pensar. Por
outro lado, parece tão fácil: eles vão em linha reta escorrega abaixo, o que
pode ser difícil a ponto de isso ser esporte olímpico?
O estalo me veio ao assistir, de rabo de olho, a
uma competidora ir particularmente mal. O tobogã dela oscilava para lá e para
cá, em zigue-zague —exatamente como fazia meu carro na tela, nas primeiras
vezes que joguei o videogame Grand Theft Auto, batendo de guardrail em
guardrail.
Parei de preparar a aula sobre evolução e fui
prestar atenção no que estava acontecendo na tela: era uma aula de neurociência.
É fácil pensar que o cérebro é uma máquina de
responder aos acontecimentos, mas pelo contrário, o feito está em aprender a se antecipar a eles, construindo um
modelo interno que guia as ações.
Sem esse modelo, uma trajetória em
zigue-zague é tudo o que o cérebro consegue fazer: desvia o corpo do prumo para
lá, mas é demais, então "corrige" com uma ação que traz o corpo para
cá e passa do ponto de novo, então "corrige" para lá de novo...
E assim carro e tobogã fazem zigue-zague na pista,
o agachamento sobre a plataforma instável no pilates faz tremer, o corpo
bambeia quando o quadrúpede recém-nascido tenta ficar de pé.
Aprender a manter
o prumo e a direção é construir aquele modelo interno que rege as ações, eliminando
as conexões que causam ações ruidosas, cheias de desvios para longe do prumo, e
mantendo as outras.
Conforme a prática diminui o ruído sensorial e se
torna fácil manter o prumo e fazer as curvas com estabilidade, sobram recursos
mentais para prestar atenção em outras coisas, como o bólido do hóquei, ou
buscar cada vez mais perfeição.
No caso do tobogã, quanto mais o cérebro
consegue evitar variação ao redor da linha reta que é a trajetória mais curta
cano abaixo, menos atrito as lâminas encontram contra o gelo, e mais velocidade
o tobogã desenvolve.
O talento do tobogã, então, é cultivar a habilidade
cerebral de antecipar os mínimos ajustes necessários para manter o veículo
alinhado e estável ao longo das curvas e calombos da pista enquanto a gravidade
acelera o carro, que começa impulsionado pelo competidor e chega a ultrapassar
120 km/h ao final da pista, logo antes de ser necessário frear para entrar nas
curvas mais fechadas que encerram a corrida.
O bacana é que, nessa modalidade, a experiência não
é tão ofuscada pela idade: a pontuação premia consistência, não
excepcionalidade fortuita, e Kaillie Humphries e Elana Meyers Taylor,
competindo pelos EUA depois dos 40 anos, continuam dando um banho nas mocinhas.
Agora que ganhei uma nova apreciação... virei fã!
SUZANA HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da Universidade
Vanderbilt (EUA)