Por que a comida desce pelo tubo errado?
- Em bioengenharia, uma só entrada para ar e comida seria um erro de
design
- Na biologia, o que importa é que funciona
Minha
mãe não come mais pipoca. Lépida e fagueira aos 80 anos, mas tendo tido vários
sustos com engasgos, ela teme novos episódios e evita comer tudo o que tenha
pedacinhos que possam descer pelo lado errado e bloquear a respiração.
A causa
do problema é o que poderia ser chamado de um erro grave de design, se tivesse
sido de fato planejado por alguém: a entrada compartilhada pela mesma abertura,
a faringe, no fundo da boca, de ar e comida que depois devem seguir cada um
pelo seu próprio tubo, respectivamente a laringe e o esôfago.
É
bem ideia de jerico, mesmo.
O equivalente em engenharia seria criar uma garrafa
térmica onde se jogam água e pó de café juntos, mas, como essa garrafa foi
feita com duas saídas diferentes, uma para cada coisa, o engenheiro espera que
a água ache magicamente a sua saída e escoe pelo tubo certo com zero pó de
contaminação e sem entupimentos impedindo sua passagem.
Não vai acontecer.
A
versão biológica da coisa funciona porque, na garganta, os dois tubos não são
estáticos, e existe um cérebro coordenando como eles se movem.
O ato de
engolir, que envolve vários músculos, seus nervos e os neurônios de origem que
controlam a coisa toda, inclui a elevação da laringe (o tubo que leva aos
pulmões) ao encontro de uma cartilagem bem em seu topo, a epiglote.
Você pode
comprovar isso agora mesmo: coloque os dedos na garganta, logo abaixo do seu
queixo, e engula em seco, e você sentirá a laringe subindo conforme você
engole.
O
ato de engolir, portanto, move a laringe contra a epiglote, efetivamente
fechando a laringe e impedindo a passagem de água e comida por ela, que assim
só podem descer pelo tubo "certo": o esôfago, a caminho do estômago.
Na enorme maioria dos milhões de engolidas ao longo de uma vida humana, dá tudo
certo. Mas engasgos acontecem se a movimentação for incompleta, descoordenada,
ou quando, na ânsia de dizer algo, se inspira para falar enquanto ainda há
água, saliva ou comida na faringe.
O risco de morte nesses casos é enorme e
real, caso um pedaço de comida obstrua a passagem de ar, ou acabe nos
brônquios, causando pneumonia.
Mas
nada disso responde à pergunta mais básica: como é que acabamos com um sistema
desses?
E isso não se aplica apenas a nós humanos; todos os vertebrados que
respiram ar têm o mesmo problema de um só canal de entrada para ar, água e
comida.
A resposta tradicional, "porque isso é vantajoso e foi
selecionado", é absolutamente insatisfatória.
Descobri recentemente uma resposta muito melhor,
estudando como o sistema respiratório evoluiu. São raros os animais que possuem um: apenas artrópodes
(como insetos e crustáceos), os moluscos cefalópodes (como o polvo), e os
vertebrados (como nós).
Em cada um desses animais, o sistema respiratório se
forma de um jeito diferente.
Em insetos, as traqueias são dobras da pele que
adentram o corpo na forma de canais, com zero risco de entupimento por comida.
Em vertebrados, os pulmões crescem a partir de abas do tubo digestivo. Como o
lado de dentro do tubo digestivo ainda é o lado de fora do corpo (não é
extraordinário se dar conta disso?), os pulmões trocam ar com o mundo
literalmente na aba do tubo digestivo, levando ar ao interior do corpo.
É o que é, e em geral funciona, então... estamos aqui. No
mais, é fazer uma coisa de cada vez, com atenção: ou bem se come, ou bem se
fala.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da Universidade
Vanderbilt (EUA)