Não tão determinados assim
É claro que
livre-arbítrio existe
Adoro os livros do neurocientista Robert Sapolsky
sobre estresse.
"Por que as zebras não têm úlceras?" é uma introdução
excelente à faca de dois gumes que é a capacidade de sofrer por antecipação;
"Junk food Monkeys" tem ensaios deliciosos sobre nossos hábitos de
primatas, baseados nas observações do autor sobre uma comunidade de babuínos
selvagens que ele visitava regularmente no Quênia.
Seu livro mais recente, contudo, é para mim difícil
de ler sem marcar e rabiscar o texto continuamente com meus protestos.
Em
"Determinados", lançado no Brasil em 2025, Sapolsky revela sua
convicção de que não existe livre-arbítrio –e mais: sua
crença em um mundo Laplaciano, determinista, onde a configuração atual de cada
átomo e partícula subatômica do Universo define sucessivamente a configuração
seguinte, e por conseguinte a configuração do cérebro define o destino de cada
um.
É literalmente uma declaração da sua crença em destino.
Peculiar, quando logo em seguida, e ainda na
introdução do livro, ele declara que acredita em mudança. Só pode ser porque a
mudança também estava predeterminada, caso no qual ela não é de fato mudança,
não é mesmo?
Pela lógica dele, seus leitores que acaso mudem de opinião sobre o
livre-arbítrio já deviam estar fadados a mudar de opinião.
Deve ser frustrante
escrever um livro assim, a não ser que ele também achasse que já estava escrito
na configuração dos átomos do Universo que ele escreveria o livro, e que certos
leitores mudariam de opinião... e que esta neurocientista protestaria.
Acho que Sapolsky, como tantos neurocientistas que
já li, comete o erro básico de não definir seu tema, no caso
"livre-arbítrio", antes de escrever um livro inteiro a respeito.
A
definição que ele oferece é uma não definição: ele somente aceitará que
livre-arbítrio existe quando alguém lhe mostrar um neurônio ou um cérebro que
gere comportamento sem ser influenciado pelo somatório do seu passado
biológico.
Primeiro, isso é uma safadeza, quando ele já sabe, melhor do que a
maioria, que os detalhes da organização e do funcionamento de cada cérebro
individual, e portanto do comportamento que ele produz, dependem da combinação
de loterias genéticas, biológicas, e sociais.
E segundo, e mais importante,
nada disso tem a ver com livre-arbítrio.
Livre-arbítrio é a capacidade de ser agente do
próprio futuro, tanto imediato quanto distante.
Não termos poder sobre o futuro
distante, por exemplo porque por definição raras pessoas se tornam astronauta
ou presidente, não significa não ter agência sobre cada passo do caminho, ainda
que no final os votos não cheguem ou a Nasa nos rejeite.
Sim, nosso cérebro é determinado por várias loterias.
E isso
não impede que, ao mesmo tempo, também tenhamos o poder de autodeterminação.
Esta é a essência do livre-arbítrio, a qual reside na capacidade do nosso
cérebro cheio de neurônios corticais de representar ações alternativas, cogitar
a que estamos prestes a fazer, depois representar as consequências das nossas
ações sobre os outros, e as consequências destas sobre nós mesmos, e só então
seguir adiante... ou não.
Mudar de ideia é a capacidade mais importante do cérebro, e
até Sapolsky acredita nela –ainda que ele ache que é só porque ele foi
pré-determinado a pensar assim.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL - bióloga e
neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)SUZANA