Por que até a renda fixa caiu em março, e o erro
que muitos investidores cometem agora
- A piora no cenário global elevou os prêmios de risco e fez até a
renda fixa oscilar, surpreendendo investidores mais conservadores
- Movimentos como o de março já aconteceram antes e costumam ser
seguidos por recuperação, mas muitos saem antes de capturar esse retorno.
Ninguém
pega um voo já esperando turbulências fortes. Mesmo pequenas oscilações
costumam nos pegar de surpresa. Entretanto, sabemos que elas costumam ter
explicação e são passageiras.
Mesmo assim, quando ocorre uma turbulência que
dura um pouco mais, outro fator nos incomoda de verdade: não saber quanto tempo
ela vai durar.
Minutos
parecem longos demais. E, enquanto o avião balança, a sensação é de que o
desconforto parece não ter fim.
No
mercado financeiro, março trouxe exatamente esse tipo de cenário. O motivo é
conhecido: a escalada das tensões no Oriente Médio. Mas, mesmo com a causa
clara, a incerteza sobre o que vem pela frente mudou o comportamento dos
investidores.
E,
dessa vez, até a renda fixa —que costuma ser o trecho mais previsível da
viagem— entrou na turbulência.
A
reação foi ampla. Em momentos de maior incerteza, investidores tendem a reduzir
exposição a risco.
Sabemos que isso costuma atingir a Bolsa, os fundos
imobiliários, fundos multimercados, renda fixa referenciada ao IPCA e
prefixada, mas também, de forma menos frequente e menos intuitiva, afeta a
renda fixa referenciada ao CDI.
É nesse ponto que entra um conceito central, mas
ainda pouco compreendido: o spread de crédito.
O spread é, basicamente, o prêmio adicional que o
investidor exige para emprestar dinheiro a uma empresa financeira ou
corporativa em vez de aplicar em títulos públicos. Quando o medo aumenta, esse
prêmio também sobe. E quando ele sobe, o preço dos títulos já existentes cai.
Um exemplo ajuda a deixar isso claro. Imagine um
título que pagava CDI mais 1,5% ao ano com prazo de 3 anos.
Se, de repente, o
mercado passa a exigir CDI mais 1,8% para o mesmo risco, aquele título antigo
perde atratividade.
Para compensar, seu preço precisa cair cerca de 0,9%. É
esse efeito que aparece na cota dos fundos de renda fixa— inclusive naqueles
mais conservadores.
Foi exatamente isso que vimos em março. E não
apenas por fatores globais. Eventos pontuais, como anúncios recentes de
recuperação extrajudicial de empresas relevantes, funcionaram como
catalisadores, ampliando ainda mais a cautela dos investidores.
Esse tipo de dinâmica não é novo. No primeiro
trimestre de 2023, casos como Americanas e Light provocaram um movimento
semelhante — na época, ainda mais intenso.
Os spreads dispararam e muitos
fundos de renda fixa apresentaram desempenho bem abaixo do esperado.
Mas o que veio depois costuma ser esquecido. E só
aqueles que entenderam que a turbulência tem fim aproveitaram.
Nos meses seguintes, à medida que o pânico
diminuiu, os spreads começaram a recuar. E os mesmos fundos que haviam sofrido
passaram a apresentar retornos expressivos.
Não por acaso: quanto maior o medo,
maior tende a ser o retorno exigido — e, portanto, a oportunidade para quem
permanece.
O problema é que muitos investidores não participam
dessa recuperação. Assustados com perdas pontuais, resgatam no pior momento —
exatamente quando o retorno esperado começa a aumentar.
Além do crédito, outro fator pressionou a renda fixa em março: a mudança nas
expectativas de juros.
Com o aumento das incertezas
inflacionárias, o mercado revisou para baixo a magnitude da queda da Selic em 2026. O que antes parecia uma
redução próxima de três pontos percentuais passou a ser algo bem mais modesto.
Esse ajuste impacta diretamente títulos prefixados
e indexados à inflação. Quando a expectativa de juros sobe, o valor desses
títulos no presente cai. É a lógica da marcação a mercado, que costuma
surpreender quem associa renda fixa a ausência de oscilações.
Diante desse cenário, a reação instintiva de muitos
investidores é reduzir exposição. Mas é justamente aqui que mora o principal
erro.
O maior equívoco não é ver a renda fixa oscilar. É
abandoná-la no momento em que ela começa a pagar melhor.
Spreads mais altos significam maior remuneração
para quem permanece investido, ou para quem aproveita para aplicar mais.
Historicamente, os melhores pontos de entrada não acontecem quando tudo parece
tranquilo, mas quando o desconforto é maior.
Isso não significa ignorar risco. Para quem precisa
de liquidez no curto prazo, reduzir exposição pode ser prudente.
Mas para quem
tem horizonte mais longo, momentos como o de março tendem a ser mais
oportunidade do que ameaça.
Renda fixa continua sendo renda fixa. O que mudou
foi o preço no caminho, não necessariamente o destino. E, no mercado, muitas
vezes, não é a turbulência que define o resultado — é a decisão que você toma
enquanto ela acontece.
MICHAEL VIRIATO - assessor de
investimentos e sócio fundador da Casa do
Investidor.