O documentarista que abriu as entranhas de um golpe
de Estado
- Silvio Tendler documentou ameaças à democracia que resultaram na
ditadura militar
- Seus temas continuam atuais: grupos continuam a impor a própria
vontade acima da lei
Silvio
Tendler promoveu uma revolução. Não houve tanques nas ruas, nem multidões
invadindo os prédios dos Poderes.
Ele
não era do golpe, nem da guerra.
Silvio
era da paz e do encontro com afeto.
Mas
ele bagunçou o coreto. Silvio trouxe a democracia, e seus percalços, para o
centro do debate.
Ele
documentou o que ocorrera. Silvio Tendler deu um nó em algumas gerações.
Muitos
foram presos, torturados ou exilados pela ditadura. Conheci alguns dos
sobreviventes, amigos dos meus pais.
As
histórias da truculência sadista dos policiais e oficiais do Exército nas
sessões de tortura jogam no lixo a crença no senso de empatia, de humanidade.
Foi
cruel e brutal.
Agentes de segurança sodomizavam presos, além de
aplicarem choques elétricos em outras partes sensíveis, em meio a muitas outras
formas de massacre. Muitos não sobreviveram.
Ameaças aos parentes próximos dos presos eram parte
do receituário. A brutalidade parecia não ter limite.
A história não se esgota no desastre da ditadura
militar.
Tivemos, há poucos anos, uma tentativa de golpe.
Alguns defendiam que a ditadura havia sido branda.
O judiciário reagiu e muitos foram presos.
Democracia é jogo difícil. Deve-se defender o
direito dos que abominamos.
Alguns da extrema direita tentaram ultrapassar a
fronteira e consumar um golpe de Estado recentemente. A pena não deveria ser leve.
Contudo, romper as regras do Estado de Direito,
como o Judiciário tem feito nos últimos anos, legitima os seus críticos.
O confronto com a extrema direita não deve ser
salvo-conduto para ações do Judiciário que rompem com o previsto em lei. Juízes
usurpam o que cabe aos demais Poderes, e impõem nova legislação, além de
aumentar a sua própria remuneração.
Não sabiam que iria gerar revolta?
O Judiciário deveria ser o baluarte do Estado de
Direito, não o seu opositor.
O tema de Silvio Tendler em seus documentários
continua atual. Direita e alguns grupos procuram romper com as regras da
Constituição e impor sua vontade acima da lei.
A imparcialidade dos juízes não deveria ser
comprometida por benesses do setor privado, ou terem parentes agraciados em
escritórios de advocacia com contratos de remuneração que ultrapassam os dos
mais importantes do país.
Em um caso, o valor chega a R$ 129 milhões por três
anos.
Qual a razão desse contrato fora do usual? Defender
interesses nos órgãos reguladores? Algo mais? Qual a explicação dada pelos
beneficiários de um contrato tão generoso? O escritório beneficiado é da esposa
de ministro do STF.
Juiz do STF não deveria viajar, com custos pagos
por terceiros, para eventos em outras regiões, menos ainda para outros países.
Como justificar o sigilo para a
investigação da grave crise do Banco Master?
Não deveriam surpreender os muitos pedidos de impeachment de juízes do STF.
O problema não se limita ao STF. O caso do Master,
e de muitas fintechs que estão sendo reveladas por investigações, como a
Carbono Oculto, geram questionamentos sobre o Banco Central.
Eles não sabiam?
O fracasso da área de fiscalização do Banco Central se soma às proteções do
Judiciário para garantir sigilo à investigação dos graves problemas.
Mas
a história da complexa relação do poder público com o setor privado não termina
aí.
Impressiona
como a agenda econômica do governo de esquerda atual se assemelha à da
ditadura: auxílios para setores e empresas escolhidos; crédito subsidiado para
os apoiados pelo governo; proteções setoriais; auxílios para produção em
regiões privilegiadas…
Nessa
complexa, e discricionária, relação entre setor público e grupos privados,
desvios ocorrem, e não são de pouca monta.
Silvio
Tendler faz falta. Ele contaria essa história com bem mais maestria.
Curioso,
no Brasil, como existe uma concordância entre a esquerda e a direita mais
radicais quando se trata de extrair do Estado benefícios para grupos privados.
Basta levantar as votações no Congresso.
A
agenda patrimonialista é ecumênica.
Em
seus documentários, Silvio Tendler contou a história antes do golpe de 1964.
E
que história ele contou! O confronto entre a liberdade e o caudilhismo.
Os
filmes resgatam imagens impressionantes da época, e com um cuidado com a imagem
e o som que surpreendem.
Silvio
Tendler documentou a nossa escolha.
No
meu caso, e de muitos da minha geração, os seus filmes contaram da brutalidade
que interrompeu a nossa breve democracia.
A
memória inacreditável de Silvio se tornou a de muitos, pela sua generosidade. A
sua capacidade de resgatar os filmes antigos e de reconhecer de bate-pronto as
personagens permitiram a construção de documentários comoventes. Eles retratam
a nossa história em conflito recorrente com as forças autoritárias.
Silvio
contou o que ocorreu, com cuidado e respeito à divergência, e mostrou que havia
um outro caminho.
"Jango"
atraiu mais de um milhão de espectadores em um único cinema, Leblon 2, do Rio,
nos anos 1980. É inacreditável o total de espectadores para uma cópia do filme.
Houve
o documentário sobre JK.
Discordo
aqui e ali. Mas que estupendo trabalho. O resgate das imagens, o cuidado com a
edição. Silvio sabia dos arquivos.
Esses
dois filmes mostram o que de melhor o cinema pode fazer para contar a história
do Brasil.
Silvio
saboreava a história. Sua visão da política é transparente, assim como as suas
avaliações das divergências. Ele tinha um humor ao mesmo tempo inteligente e
escrachado.
Mas
fazia questão de registrar as opiniões que discordavam das suas ideias. Silvio
tratava o contraditório como parte essencial da democracia.
Homem
gentil, grande documentarista.
Silvio
Tendler partiu.
Seus
filmes ficam.
MARCOS LISBOA - economista, ex-presidente do Insper e
ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda (2003-2005,
governo Lula)