Tecnologia traz assombrações bem mais reais do que aquelas vindas do além.

Um dos livros mais intrigantes que li recentemente é “Strange Frequencies: The Extraordinary Story of the Technological Quest for the Supernatural” (Estranhas Frequências: A Extraordinária História da Busca Tecnológica pelo Sobrenatural), do escritor, crítico e teólogo Peter Bebergal. 

Por muito tempo houve quem acreditasse que usando a tecnologia seria possível captar fenômenos sobrenaturais ou até mesmo conversar com o além.

No livro, Bebergal mostra o uso da fotografia para tentar captar imagens de fantasmas. Faz também um paralelo interessante entre o mito do Golem e a automação cada vez mais presente com a inteligência artificial. 

Mas a parte mais interessante é quando ele aborda o uso de técnicas de gravação de áudio para captar sons do além. Por exemplo, o antropólogo russo Valdimir Bogoraz, que em 1901 usou um cilindro de cera para gravar vozes supostamente vindas do além que apareciam nos rituais dos Chukchis, povo nômade da Sibéria. 


Assistente pessoal da Amazon, chamada de Alexa

Nas palavras do próprio Bogoraz: “As gravações mostram uma diferença entre as vozes do xamã, que soam de longe, e as vozes dos ‘espíritos’, que parecem falar diretamente no funil [de gravação]”. Os áudios foram publicados pelo Museu Americano de História Natural, em Nova York.

O livro faz também referência ao trabalho do parapsicólogo lituano Konstantin Raudive, que desenvolveu técnicas para coletar os chamados EVPs (Fenômenos de Voz Eletrônica), supostamente gravando vozes do além. Alguns de seus áudios foram compilados no disco “Breakthrough: Experimentos de Comunicação com os Mortos”, que está disponível no Spotify. 

Independentemente de quem acredita no seu caráter paranormal, os sons são horríveis, e não recomendo a ninguém que sofra de ansiedade ouvir, ainda mais sozinho ou à noite.

No mínimo, Raudive foi muito criativo em sua técnica de produção, gerando sons que são bons precursores para as cenas musicais eletrônicas mais barulhentas.

Se esses fenômenos não passam do campo da especulação, há, por outro lado, assombrações bem reais que se materializam com a tecnologia atualmente. Cresce a preocupação com o uso de dispositivos de internet das coisas, como casas inteligentes, assistentes de voz, câmeras conectadas à internet e outros gadgets, para finalidades de assédio ou abuso doméstico. Como mostrou o jornal The New York Times, os casos são cada vez mais frequentes.

Há relatos de pessoas que foram espionadas por seus parceiros por meio de câmeras conectadas à rede. Que tiveram sua localização monitorada pelo celular, por meio de recursos como “find my phone”. Casos em que luzes da casa, aquecimento e ar-condicionado eram ligados sozinhos à distância em hora inapropriada. E até uma vítima que tinha o código da fechadura digital de entrada da sua casa trocado todas as vezes em que saía. 

Esses casos têm se tornado cada vez mais comuns, abrindo um novo campo de discussão sobre práticas de assédio.

Por fim, sobre outro tema, quem quiser saber mais sobre a transição de empresas de internet para inteligência artificial deve olhar o trabalho do Andrew Ng, um dos autores que melhor conceituam essa transição. O modelo dele orientou a estrutura da primeira coluna deste ano, com Kai Fu Lee e Matt Turck.

Ronaldo Lemos - Advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

Fonte: coluna jornal FSP

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