Metade
do oxigênio que você respira não vem de árvores
Camada iluminada dos
oceanos, do equador aos polo
Pelo
menos metade do oxigênio do planeta vem de fitoplâncton microscópico no oceano,
não das florestas. Uma única cianobactéria, a Prochlorococcus, é o organismo
fotossintético mais abundante da Terra.
A
imagem da floresta como pulmão do mundo é só metade da história. Pelo menos
metade do oxigênio que você respira vem de micróbios invisíveis do oceano. A
maior fábrica de ar da Terra é pequena demais para se ver a olho nu.
I.
O Mecanismo
O
personagem não é uma árvore nem um campo verde: é o fitoplâncton, um conjunto
de seres microscópicos que vivem em suspensão na camada de água iluminada pelo
sol. São algas e bactérias tão pequenas que cabem milhões num copo de água do
mar.
Como qualquer planta, elas fazem fotossíntese: capturam luz, consomem gás
carbônico e devolvem oxigênio para a água e para o ar.
Entre
eles existe um campeão silencioso, a Prochlorococcus. É uma cianobactéria
minúscula, menor que a maioria das outras células do plâncton, e descoberta só
no fim dos anos 1980 porque era pequena demais para os métodos antigos.
Apesar
do tamanho, ela é tão numerosa que costuma ser apontada como o organismo
fotossintético mais abundante do planeta, com população estimada na casa dos
octilhões de células espalhadas pelos oceanos.
Para
medir quanto desse oxigênio sai do mar, pesquisadores combinam dados de
satélite, que enxergam a cor verde das florações na superfície, com a medição
direta da fotossíntese em amostras de água.
A partir do quanto de carbono o
plâncton fixa, calcula-se quanto oxigênio ele libera. O total da produção
oceânica chega perto do total da produção feita por toda a vegetação dos
continentes.
Daí
vem a conta que choca: somando o que o oceano produz, estima-se que o
fitoplâncton responda por algo entre metade e mais da metade de todo o oxigênio
gerado por fotossíntese na Terra. Boa parte do ar que entra no seu pulmão
passou primeiro por uma célula que você nunca vai ver.
Não
é que as árvores não contem. É que metade da fábrica de oxigênio do planeta
flutua, invisível, no mar.
II.
Por que Importa
Esse
fato vira de cabeça para baixo a ideia de que florestas são o pulmão do mundo.
O pulmão é dividido: metade em terra, metade num tapete vivo de
micro-organismos que quase ninguém percebe. Quem sustenta a respiração do
planeta cabe na ponta de uma agulha.
A
Prochlorococcus mostra que o que é mais abundante e mais importante nem sempre
é o que é grande ou visível. O destino do oxigênio do mundo depende de uma
célula que ficou escondida da ciência até poucas décadas atrás. E há um lado
urgente nisso.
O
fitoplâncton vive na fina camada superficial do mar e responde rápido a
mudanças de temperatura, acidez e nutrientes. Águas mais quentes e mais ácidas
podem reduzir sua produtividade, e mexer nessa base afeta toda a cadeia
alimentar marinha e o balanço de oxigênio do planeta.
Proteger o oceano deixa
de ser só uma questão de paisagem e vira questão de ar.
III.
A Fonte
Field,
C. B., Behrenfeld, M. J., Randerson, J. T., & Falkowski, P. (1998). Primary
production of the biosphere: integrating terrestrial and oceanic
components.Science, 281(5374), 237-240, e revisões em Nature (2009) sobre a
abundância global de Prochlorococcus.
Os estudos integraram medições de satélite e amostragem direta para estimar a
produção primária dos oceanos e dos continentes, mostrando que o fitoplâncton
marinho contribui com cerca de metade da produção fotossintética global, e
levantamentos posteriores confirmaram a Prochlorococcus como a cianobactéria
fotossintética mais abundante já registrada.