Cancelando a cultura do cancelamento


Cancelando a cultura do cancelamento

Pena ilimitada pode destruir a vida da pessoa para sempre.

Em outubro de 2020 o ator Paulo Gustavo estava preocupado com a “cultura do cancelamento”. 

Paulo tinha passado por uma experiência que dava uma amostra de como ela funciona. 

No filme Minha Mãe é Uma Peça havia uma cena de casamento gay. Mas não havia beijo gay.

Na live que fizemos juntos em outubro de 2020 ele me disse: “Eu recebi uma série de ataques na internet e fiquei uma semana mal. 

Uma galera raivosa que você não sabe de onde sai. As pessoas vão replicando. Fiquei sendo atacado como um cara homofóbico! 

Posso ser atacado por várias coisas, mas homofobia?”.

Paulo Gustavo faz uma falta irreparável para o mundo. 

É curioso que ele, que era avesso a lives, tivesse escolhido justamente o tema do cancelamento para debater publicamente.

Corte para o presente. A escritora Anne Applebaum, autora do livro “O Crepúsculo da Democracia”, escreveu recentemente um artigo sobre a cultura do cancelamento chamado “Os Novos Puritanos”. 

Anne, que é uma das principais vozes contra as táticas de manipulação na internet, também voltou sua atenção para o tema.

No artigo ela compara a cultura do cancelamento com a infame “Letra Escarlate” do livro de Nathaniel Hawthorne. Nele a personagem principal dá à luz um bebê fora do laço do casamento. 

Por consequência é obrigada a usar permanentemente uma letra “A” vermelha pendurada ao corpo (A de adúltera). O resultado é o ostracismo em vida. 

Ninguém, nem mesmo o pai da criança (um pastor), se relaciona mais com ela. 

O livro conta como essa punição tem “o efeito de um feitiço, que a removeu das relações com a humanidade”.

Dentre todas as ameaças que rondam as democracias, Applebaum acha que está também a cultura do cancelamento. 

No texto ela invoca que um dos pilares das democracias é o devido processo legal.

Em outras palavras, para ser condenado e punido é preciso existir lei anterior, análise, julgamento e só depois vem a pena. A punição precisa ter duração limitada. 

O crime não pode estar prescrito (precisa estar dentro do prazo definido por lei em que ainda é possível processar e punir).

Na cultura do cancelamento nada disso se aplica. 

A pena é imediata, o julgamento é feito sem direito de defesa. Muitas vezes pela “galera raivosa”. A pena é ilimitada e pode destruir a vida da pessoa para sempre —removendo-a do convívio social—, como na Letra Escarlate.

Quem julga e penaliza não tem responsabilidade por seus atos. Ao contrário, os ataques consistem com frequência em espetáculo público. 

Nas palavras de Anne: “Uma vez que fica claro que atenção e elogios podem ser obtidos atacando a reputação de alguém, muita gente descobre que é do seu interesse fazer aquilo”.

É claro que muitos atacados de fato cometeram atrocidades. 

Além disso, muitas causas subjacentes a um cancelamento são justíssimas. Não é esse o ponto. 

A questão é que recriar a prática do ostracismo perpétuo e obliterar o devido processo legal é combater um mal com outro. 

A consequência é que temos então dois problemas em vez de um.

RONALDO LEMOS - advogado, diretor do Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro.

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