Livro transforma número pi em narrador de sua
própria história
- Autores usam tom autobiográfico em obra sobre a constante 3,14
- Cientistas que ajudaram a desvendar seus enigmas viram heróis
Há algo
de curiosidade infantil —no melhor sentido da palavra— na maneira como os
matemáticos são capazes de enxergar o mundo dos números, e é essa uma das grandes ousadias de "Pi: Uma
Biografia Infinita", escrito e ilustrado pelo trio Mahsa Allahbakhshi,
Andrés Navas e Verena Rodríguez.
Navas, matemático, e Rodríguez, ilustradora, são
ambos chilenos. Allahbakhshi, também matemática, formou-se na Universidade de Teerã
antes de se tornar professora universitária no Chile.
Os três, ao contar a história do número
representado pela letra grega π (pi, equivalente ao nosso "p"),
decidiram adotar uma linguagem que, de início, lembra a de um livro para
crianças —a começar pelo fato de que "Pi" é o narrador em primeira
pessoa de sua própria saga.
O narrador-número convive com outros números
personificados, muitos dos quais também intrigantes e misteriosos como ele, e
vai contando ao leitor sobre a galeria de seu s "heróis".
Trata-se de um "dream team" de
matemáticos de todas as épocas e lugares, cujo trabalho ajudou a elucidar,
pedacinho por pedacinho, diversos enigmas ligados a essa constante normalmente
arredondada como 3,14. Para quem já esqueceu o que viu na
escola, uma aproximação desse número aparece toda vez que alguém divide o
comprimento de um círculo pelo seu diâmetro.
Tudo a Ler
O "Pi" do livro é tão bem-humorado e
insaciavelmente curioso quanto uma criança com inclinação para os números (seu
livro favorito, inclusive, é o clássico infantojuvenil alemão "A História
sem Fim", de Michael Ende, que inspirou o filme de mesmo
nome —decerto uma referência gaiata ao fato de que realmente não há fim para a
fileira de números depois da vírgula no caso do π).
Não é impossível que crianças com esse perfil
consigam acompanhar a obra, mas o texto, no fundo, é mesmo dedicado aos
adultos. Em especial àqueles que têm dificuldade de achar alguma graça na
matemática pura ou veem a disciplina por um prisma exclusivamente utilitarista.
Esse público talvez reaja à estrutura narrativa
aparentemente infantil como uma barreira, no começo, mas um tiquinho de
paciência é suficiente para perceber que a aposta dos autores foi, em grande
medida, acertada. Quem estiver disposto a entrar na brincadeira e fazer alguma
ginástica mental terá diante de si uma jornada prazerosa.
Não espere, porém, céu de brigadeiro o tempo todo.
É verdade que a obra começa devagar, com as maneiras mais concretas possíveis
de conceber o número pi —rolando uma moeda em cima de uma régua até estimar o
comprimento da circunferência dela, por exemplo, e depois fazendo uma simples
conta de dividir.
Mas, conforme os capítulos progridem, os autores
não se furtam a acrescentar complexidade, até chegar a facetas que as pobres
mentes "de humanas", como diz o vulgo, sofrerão para absorver.
Mesmo assim, a leitura atenta é recompensadora por
deixar claro, por exemplo, como qualquer descoberta científica é sempre uma
aproximação da realidade, conquistada na base da persistência e da imaginação.
É esse fio condutor que une os muitos métodos para medir o pi da forma mais
precisa possível e de usá-lo para medir a área de um círculo (outro lembrete
dos ensinos fundamental e médio: a fórmula é A = π x r2, sendo
"r" o raio do círculo).
Mas por que diabos alguém quereria saber cada vez
mais casas do pi depois da vírgula? Segundo um dos "heróis" do nosso
narrador, o astrônomo persa Al-Kashi (1380-1429), uma boa razão para se dedicar
à tarefa seria "calcular o tamanho do Universo com margem de erro inferior
à espessura de um pelo da crina de um cavalo" —assumindo, é claro, que o
Cosmos é esférico, um pressuposto comum da cosmologia medieval.
Acontece que, usando a aproximação do número pi
feita pelo próprio Al-Kashi (usando "apenas" 16 casas decimais) e
aceitando as distâncias cósmicas imaginadas na Idade Média —tentando, portanto,
medir com precisão o tamanho do Sistema Solar, e não o do Cosmos inteiro que
conhecemos hoje—, a margem de erro na estimativa é de só de um milímetro —ou,
como observam os autores do livro, "um tiquinho de nada mais grosso que um
pelo da crina de um cavalo".
Em 2022, uma sucessora distante de Al-Kashi, a
"heroína japonesa" Emma Haruka Iwao, conseguiu calcular 31,4 trilhões
de dígitos do número infinito. A história sem fim continua.
REINALDO JOSÉ LOPES | repórter de ciência e colunista da Folha, é especializado em biologia e
arqueologia.
Pi: uma Autobiografia DefinitivA
- Preço R$ 79,90 (144 págs.)
- Autoria Mahsa Allahbakhshi, Andrés Navas e Verena Rodríguez
- Editora Tinta-da-China Brasil