Toda vida é uma Jornada do Herói
- Não é preciso ser Ulisses para ter vida de herói
- Formato comum de narrativa é apenas a vida como o cérebro a
constrói
O futuro herói tem uma vidinha pacata, mas a
aventura chama: alguma dificuldade ou desafio que o herói ainda não tem
competência para atacar, mas ele vislumbra uma possibilidade de sucesso e vai
atrás.
No caminho, alguns passam a perna nele, outros lhe estendem a mão para
erguê-lo do tropeço, e uma ou outra pessoa, poderosa ou apenas já escolada pela
vida, resolve lhe ensinar alguns truques.
Armado de competências cada vez mais fortes, o
aventureiro ataca dificuldades cada vez maiores, escala montanhas metafóricas
ou literais cada vez mais íngremes, até que um dia, transformado, satisfeito,
cansado ou todas as alternativas acima, resolve voltar para casa, ou achar uma:
aquele lugar que é tranquilo e seguro porque tudo nele é conhecido.
Sua mente provavelmente buscou encaixar na
narrativa acima seu herói preferido, aquele que seu cérebro representou e
valorizou mais vezes e com mais gosto, ou mais recentemente, como o Ulisses
cuja versão do Christopher Nolan anda pelas telas
de cinema, e já já numa telinha perto de você,
caso você não queria se aventurar com o poema de Homero.
Também cabe Bilbo
Baggins, Frodo, Forrest Gump e tantos outros protagonistas de estórias
populares.
E também cabe você, herói da sua própria história,
e sem precisar que algum escritor tome você como personagem principal para
aplicar a fórmula narrativa que estudiosos variados chamam de Jornada do Herói,
Mito do Herói ou Monomito.
Acontece que toda vida de quem tem cérebro é uma
jornada do herói por uma razão muito simples: é assim que o cérebro funciona.
Nascemos cheios de permitências, que são aquelas características biológicas que
nos dão possibilidades, mas com essencialmente zero habilidades de fato.
Nosso
cérebro é um bloco de matéria-prima bruta cheio de futuros possíveis, mas de
presente ainda amorfo. Neste estado, tudo é dificuldade e desafio, de manter-se
de pé a escalar montanhas.
Mas o
cérebro aprende conforme faz, e portanto são as oportunidades de fazer que nos
permitem transformar permitências em competências.
E, como os heróis nos
lembram, oportunidades começam com abrir a porta de casa e lançar-se do
familial e familiar ao desconhecido. Não precisa ser guerra ou mar revolto:
sair para ir à escola já serve.
Fazemos
isso movidos a imposições mas também impelidos por nossos valores pessoais, que
sentimos como vontades e desejos que se transformam em aspirações. Elaboramos
planos e os colocamos em prática conforme nosso corpo e competências mentais em
crescimento vão conseguindo executar.
Desta combinação de fatores o cérebro vai
avaliando o que vale o esforço, e buscando fazer mais, mais, mais –não porque
quer mais do resultado, mas porque tem prazer em se sentir capaz de procurar.
Até que um dia, corpo e mente sentindo o cansaço
que inevitavelmente chega, porque afinal se trata de matéria, e matéria gasta,
o prazer passa a estar em buscar descanso e sossego. O herói quer um lar: um
lugar para ser e estar, sem precisar de mais esforço para chegar.
Para esta neurocientista de plantão, então, não há
mistério a ser explicado por estudiosos literários. Toda vida de quem tem
cérebro é, por definição, uma Jornada do Herói.
E antes que a patrulha de
gênero chegue: herói pode ser homem, mulher, e tudo entre os dois. No que tange
à construção do nosso arco de vida, o cérebro é o mesmo.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL | bióloga
e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)