Proposta para educação poderia mesclar experiências
cearense e chilena
- Desafio do Brasil é sair de ilhas de excelência para um país
inteiro de excelência educacional
- É preciso difundir boas práticas de Ceará, Alagoas e Goiás
Nosso
sistema de avaliação da educação básica, o Saeb, indica, há
muitos anos, que temos ilhas de excelência educacional em todas as etapas em
diferentes lugares do Brasil.
O Ceará tem escolas de altíssimo resultado nos
anos iniciais; Alagoas tem excelentes resultados nos anos finais; e Goiás se
destaca no ensino médio, além de outros exemplos.
Nosso
desafio como nação é sair de ilhas de excelência para um país inteiro de
excelência. Divulgar as boas práticas dos que têm sucesso é de grande valia. O
que fazem Ceará, Alagoas e Goiás?
E olhando para os vizinhos, conhecer a forma
chilena de difusão traz pistas de como espalhar inspirações valiosas.
O Prêmio Escola Nota 10 é uma
iniciativa do governo estadual do Ceará, criada em 2009, que premia escolas
públicas com os melhores resultados de aprendizagem com base no Spaece (Sistema
Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará).
O prêmio se destina a
escolas públicas com melhores resultados e apoia técnica e financeiramente as
escolas públicas com resultados menores.
A
estratégia de difusão de prática ocorre pelo pareamento de escolas de maior e
menor resultado. As que se saem melhor recebem o equivalente a 75% do valor do
prêmio –os 25% restantes só chegam após o apoio à escola de menor resultado, ou
seja, só chega se houver ajuda a uma escola com mais dificuldade.
As
de menor resultado recebem o equivalente a 50% e só ganham os outros 50% com a
condição de elevarem seu resultado a um valor mínimo.
O intuito é dar às
instituições de menores resultados a oportunidade de desenvolver um plano de
ação mentorado pela escola de maior aprendizagem.
A
estratégia brasileira, portanto, envolve parear as escolas de alta e baixa
aprendizagem e, a partir desse pareamento informal, fomentar boas práticas.
Essa estratégia não envolve a documentação formal e escrita das práticas; ela
acontece por meio de um estímulo a um diálogo direto e não mediado.
Já o "Se Puede: Todos por la Educación",
do Chile, vai por outro caminho. A iniciativa
identifica, documenta e dissemina as práticas pedagógicas e de gestão das
escolas e redes de ensino com melhor desempenho.
A partir do sistema de avaliação chileno,
identifica-se as escolas com bom desempenho, e uma equipe do Ministério da
Educação vai ao local documentar as práticas para, posteriormente, publicar a
chamada "É Possível", na qual todos têm acesso ao conjunto de
práticas de sucesso.
Diferentemente do caso do Ceará, o Chile publica um
livro que pode ser consultado sem depender da estratégia de pareamento de
escolas.
Por que não contar aos brasileiros as práticas das
nossas ilhas de excelência? Uma política pública exequível seria misturar a
abordagem cearense com a chilena.
O governo federal poderia, a partir das ilhas de
excelência, enviar uma equipe a esses territórios para documentar as práticas
—diferentemente do estilo "top-down", seria o ministério aprendendo
com os territórios.
Em conjunto com essa documentação, poderíamos
sugerir e estimular pareamentos bem pensados para que os territórios troquem
práticas informalmente, utilizando a documentação disponível publicamente sobre
boas práticas. O que nos impede?
LAURA
MÜLLER MACHADO |mestre em Economia Aplicada pela USP, é
professora do Insper e foi secretária de Desenvolvimento Social do Estado de
São Paulo