Maria cresceu ouvindo os conselhos do pai de que devia
guardar pelo menos 20% do salário para formar uma confortável reserva financeira para o futuro. Bendito
conselho! Maria não desprezou o ensinamento paterno e, com muita disciplina e
esforço, conseguiu acumular R$ 1 milhão!
Há algum tempo vem pensando em reduzir a carga de
trabalho, ter mais tempo livre para desfrutar a vida e colher os frutos da
poupança que tem. A empresa onde trabalha vem sinalizando mudanças na política
de recursos humanos, renovando a equipe de colaboradores. Maria sente que, em
breve, estará aposentada.
Debruçada sobre a planilha do seu orçamento, fez um
exercício para definir os fluxos de receitas e despesas futuras e apurou que
precisará de uma renda mensal de R$ 5.000 para complementar a pensão do INSS. E
se pergunta por quanto tempo o capital de R$ 1 milhão será capaz de prover essa
renda mensal antes que se esgote.
Maria definiu a renda complementar de R$ 5.000 com base
nos valores atuais, mas sabe que esse valor aumentará em razão da inflação dos
preços. O capital disponível também vai crescer por causa dos rendimentos da
aplicação financeira que tem, mas sabe que o poder de compra desse capital
diminuirá em razão da mesma inflação.
Podemos ignorar o impacto da inflação nos dois fluxos se
utilizarmos uma taxa de juros real, acima da inflação, para projetar o
crescimento desse capital. Seremos mais conservadores ainda, lembrando que além
da inflação haverá pagamento de taxas administrativas e Imposto de Renda. Vamos
utilizar uma taxa de juros real líquida de 0,20% ao mês.
Outra premissa deve ser definida: Maria deseja preservar
o capital e criar um fluxo perpétuo de saques ou pretende esgotar o capital ao
longo do tempo? No caso dela, a segunda opção. Como não tem familiares que
dependem de sua ajuda financeira, pretende fazer saques até esgotar o capital.
Fazendo cálculos rudimentares e supondo que não haverá
nenhum rendimento, podemos dividir 1 milhão por 5.000 e dizer que o dinheiro
será suficiente para 200 saques (16,6 anos). Entretanto, e felizmente, o
capital atual produzirá juros que estenderão sua duração.
Alimentamos uma calculadora financeira com as premissas
de Maria: valor presente de R$ 1 milhão, retiradas mensais (PMT) de R$ 5.000,
juros de 0,20 (i). Pressionada, a tecla (n) indicará a quantidade de saques:
256 meses (21,3 anos).
Ela não gostou do resultado. Um cálculo feito
anteriormente, estimando juros de 0,5% ao mês, indicou que o capital suportaria
cerca de mil saques, mais de 80 anos, induzindo ao erro de imaginar que poderia
fazer retiradas maiores sem correr o risco de o dinheiro acabar antes de sua
morte.
Maria entendeu a importância de ser prudente nas
projeções. Se a taxa de juro real for maior, ela poderá fazer saques
extraordinários, uma viagem a mais, um curso novo, desfrutar a vida como bem
entender.
Considerando sua expectativa de vida de mais 35 anos
(420 meses), projetando juros de 0,20% e saques de R$ 5.000, a calculadora
indica um valor presente de R$ 1,42 milhão. Ela precisa, portanto, aumentar seu
capital ou reduzir o valor das retiradas para minimizar a incerteza dessa
projeção.
A tabela informa a quantidade de retiradas que
determinado capital suporta até que se esgote, com premissa de taxa de juros
real líquida de 0,2% ao mês. Há casos em que o capital se esgota na próxima
geração. Em outros, quando o saque é igual ou inferior ao valor dos juros
reais, o capital não acaba nunca, provê um fluxo perpétuo de pagamentos.
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Marcia Dessen - planejadora financeira pessoal, diretora do Planejar e autora
do livro 'Finanças Pessoais: o que Fazer com Meu Dinheiro'.
Fonte: coluna jornal FSP