Celulares: a vez das universidades


Celulares: a vez das universidades

No início do atual ano letivo, tradicionais instituições de ensino superior —como Insper, FGV e ESPM—anunciaram restrições ao uso de celulares em salas de aula semelhantes às já adotadas por escolas de ensino fundamental e médio. 

Até agora, os primeiros estudos realizados sobre essa medida indicam que seus resultados foram positivos para a aprendizagem.

A maioria das pesquisas trata da educação básica, o que é natural pelo fato de a proibição ser mais comum nesta etapa, mas já temos evidências iniciais de que o mesmo ocorre em universidades.

Uma das mais recentes e relevantes delas foi publicada em agosto do ano passado, pelos pesquisadores Alp Sungu (Universidade da Pensilvânia), Pradeep Choudhury (Jawaharlal Nehru University) e Andreas Bjerre-Nielsen(Universidade de Copenhagen). 

Mais de17 mil universitários foram acompanhados em dez universidades da Índia, sendo que metade deles estava em salas de aula sorteadas para vigorar a proibição de celulares durante um semestre, enquanto a outra metade permaneceu em classes sem restrições.

A conclusão do estudo foi que os ganhos de aprendizagem nas salas de aulas em celulares foram estatisticamente significativos, e numa magnitude comparada a outras intervenções pedagógicas bem-sucedidas. 

Um dos achados mais relevantes foi que os estudantes que apresentavam mais dificuldades acadêmicas previamente foram os maiores beneficiados.

O impacto positivo foi maior também em alunos do primeiro ano, o que pode ser explicado pelo fato de eles ainda estarem formando hábitos de estudo num ambiente universitário. 

Observadores independentes que realizaram visitas surpresas às salas de aula do estudo também constataram menos interrupções, conversas fora do tópico e até redução do uso de celulares pelos próprios professores, ainda que esses não fossem o público-alvo da pesquisa.

Outro estudo relevante entre universitários—já citado aqui na coluna—foi realizado na China e publicado em outubro de 2024 pelo National Bureau of Economic Research

(NBER). De autoria dos pesquisadores Panle Barwick, SiyuChen, Chao Fu e Teng Li, o diferencial dessa pesquisa foi ter combinado informações de registros acadêmicos por quatro anos com dados de uso de celulares coletados por uma empresa de telefonia local e com estatísticas de ingresso no mercado de trabalho.

O foco estava em aplicativos de jogos, e o estudo mostrou que o alto uso estava associado a pior desempenho acadêmico, piora na saúde física, com impactos até mesmo na empregabilidade e renda do trabalho inicial. 

Outro estudo também publicado pelo NBER foi realizado com estudantes da Universidade do Texas, onde foi incentivado o uso de um aplicativo que rastreava o uso do celular no campus e oferecia recompensas (como descontos em lojas) para estudantes que não acessavam o aparelho no horário de suas aulas.

O resultado foi a melhoria na concentração, frequência nas aulas e na satisfação acadêmica reportada pelos próprios jovens.

Essas evidências, mesmo que preliminares, levam a crer que, do ponto de vista dos impactos na aprendizagem, a decisão das universidades brasileiras vai na direção correta.

Resta, porém, o desafio de preparar os jovens para o uso consciente da tecnologia no ambiente de trabalho, tarefa em que até adultos estão falhando.

ANTÔNIO GOIS - colunista de educação do Globo e um dos fundadores da Jeduca (Associação de Jornalistas de Educação)

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