'Adolescência': o que poderíamos ter feito?
A crise geracional
pela qual todos passam se vê agravada por um abismo inédito.
A primorosa série "Adolescência",
recém-lançada pela Netflix, acertou em cheio ao focar na
crescente preocupação com os meninos, cujo comportamento errático e violento
vem escalando.
A história apresenta a dupla fratura a que os jovens estão
submetidos hoje: de gênero e de gerações.
Em cada um dos quatro episódios de tirar o fôlego,
é representada uma instância fundamental dessa questão: o Estado, a escola, a
família e o sujeito.
Infância e adolescência estão atreladas a essas
instituições, responsáveis por cuidar, educar e controlar.
Estado, escola e família —campo de disputas e
tensões permanentes— não conseguiram prever a chegada de uma força devastadora:
a internet.
Capaz de atravessar todas as redes de proteção criadas em torno das
crianças, incrementar sua angústia e potencializar sua violência, as redes
sociais minam o delicado equilíbrio entre o sujeito e o ambiente.
Não
se trata apenas de ter acesso a informações inadequadas para cada faixa etária,
mas de ter a subjetividade infantil forjada por um modelo de interação
viciante, com o qual nenhum adulto é capaz de competir.
A conhecida crise
geracional entre adultos e crianças se vê desafiada por um abismo inédito, e
cabe aos mais velhos assumir uma posição clara e inequívoca diante dela.
Urge
coibir o uso das redes até a idade adequada e sob mediação. Seja na posição de
filho, aluno ou cidadão, a criança à mercê das redes está solta nas ruas.
A
internet não cria, mas amplifica exponencialmente os dilemas da emancipação
feminina.
Assassinato e estupro são disciplinas e visam provar o que é um homem
de verdade, segundo a cartilha da masculinidade sustentada na sujeição da
mulher.
Por
trás da truculência, a mais pueril das demandas: "Você gosta de
mim?".
É o que o menino de 13 anos, suspeito de matar a colega, pergunta à
psiquiatra que o examina, num dos episódios mais impressionantes da série. A
pergunta mais básica que nos concerne é: o que sou para o outro?
Ele pode me
perder? Isso a internet não responde, por mais que as crianças estejam
"namorando" com a inteligência artificial, como mostram estudos
recentes.
Aí
entra outro aspecto fundamental do problema: como cada sujeito lida com o campo
de fenômenos impostos pela realidade de sua época.
Diante
da inevitável e terrível pergunta sobre o que os pais poderiam ter feito, cabe
lembrar a dificuldade que os adultos têm de escutar os jovens, enquanto
reclamam que eles não se abrem.
O desencontro está bem representado na série
pela relação entre o investigador e seu filho, com quem ele quase não tem
intimidade, embora se considere um pai acessível. Ser permissivo não é ser
íntimo; pode se tratar de um álibi, uma compensação.
A
pergunta que a série faz só tem sentido se for projetada para o presente e
visando o futuro: o que podemos fazer para estancar a violência que escala sob
nossos olhos?
As
respostas possíveis para os dilemas de "Adolescência" passam por
ações individuais, como suportar escutar os jovens e importar-se com eles, mas
também por medidas coletivas, na forma de leis que os protejam na mesma medida
em que os responsabilizem por seus atos.
Passam,
principalmente, pela cena na qual os adultos têm a dignidade de encarar a dor
de admitir sua omissão até aqui.
VERA IACONELLI - diretora do Instituto
Gerar de Psicanálise, autora de “Manifesto Antimaternalista” e “Felicidade
Ordinária”. É doutora em psicologia pela USP