A comparação de um alcoólatra com os outros
atrapalha a recuperação
Aprendo em terapia
e com partilhas que a única comparação justa é comigo mesma: olhar para trás e
perceber que evoluí
Parece que já escrevi isso muitas vezes, porém é
necessário repetir: ser uma alcoólatra em recuperação é uma
condição que carrega dor, vergonha, mas também coragem.
Coragem não só de
assumir minhas fraquezas, mas de lutar incessantemente por uma vida mais digna
e consciente.
No entanto, há sempre os obstáculos nessa trajetória. São
desafios internos, e um dos principais é a comparação.
Vivemos em um mundo que valoriza o
"perfeito". Um mundo onde as pessoas procuram mostrar o melhor de si
o tempo todo, especialmente nas redes sociais.
As fotos são sorridentes, os
corpos são bonitos, os relacionamentos parecem sempre estáveis, as conquistas
sempre estão em destaque.
Mas por trás disso, existe muito que não é dito:
medos, dores, frustrações, vícios e crises existenciais. Tudo isso fica
escondido, fora do alcance dos olhos dos outros.
E quando eu olho para essas vitrines digitais, me
sinto pequena. Me comparo. Me sinto atrasada e insuficiente. Às vezes me
questiono: "Por que os outros conseguem e eu não?".
Ou: "Por que
minha vida parece travada enquanto a dos outros avança?". Essa comparação
me rouba a paz. E, mais do que isso, me afasta da minha verdade. Porque ela se
baseia em uma ilusão: a de que a vida dos outros é melhor, mais fácil, mais
tranquila, quando, na verdade, todos carregam dores que não aparecem em fotos.
A comparação não só me machuca, como também
atrapalha minha recuperação.
Ela me desvia do que realmente importa: de mim. Em
vez de olhar para o meu progresso, acabo olhando para o que não sou ou não
tenho. E isso pode ser perigoso. Pode acionar gatilhos, gerar sentimentos de
inadequação, alimentar a vontade de fugir.
E na comparação eu estou sempre em
desvantagem, olho para o que os outros têm que eu não tenho. Nunca ao
contrário. Não penso nas milhares de pessoas que não têm muitas coisas que
tenho.
Em relação à recuperação, por exemplo, eu estou há anos sem beber e vivo
um processo de autoconhecimento. Quantas pessoas conseguem?
Mas estou aprendendo com terapia, com partilhas em
grupo, com o tempo, que a única comparação justa é comigo mesma. Olhar para
trás e perceber o quanto evoluí.
Que o fato de estar sóbria hoje, de ter dito
"não" para um copo, é uma vitória imensa, mesmo que ninguém veja ou
reconheça. E que estar limpa não significa ser perfeita, mas continuar
tentando, mesmo quando tudo dentro de mim pede para desistir.
Se a comparação com o outro quase sempre nos
diminui, quando feita com a nossa trajetória pode
ser um lembrete de força.
Eu não sou menos porque erro. Eu não sou inferior
porque luto. A minha dor não me faz menor, me faz humana.
Hoje tento viver um dia de cada vez. Tento me afastar de tudo
que supostamente o mundo impõe. Tento enxergar o que há de real em mim —minhas
falhas, mas também minha coragem, minhas vitórias.
Porque ser alcoólatra em
recuperação é, antes de tudo, ser alguém que escolheu viver. E isso, por si só,
já vale mais do que qualquer comparação.
ALICE
S. –
blog Vida de Alcoólatra