Viva a inteligência interna de cura
Estados mentais
causam males ao corpo, aceitamos, mas não que produzam saúde
Tenho uma amante que, após meio século de cumplicidade, não
para de me surpreender. A pesquisa científica tem essa capacidade inesgotável
de cativar.
Ela ajuda a revelar aspectos maravilhosos do mundo natural, como a
inteligência interna de cura em corpos humanos e de outros animais.
A controversa faculdade inata de pessoas
secretarem saúde veio à mente ao ler no periódico Nature Neuroscience o trabalho de Andrea Serino da Universidade de Lausanne (Suíça).
O grupo reuniu várias
técnicas para mostrar que contemplar faces aparentando infecção basta para
ativar defesas do organismo.
Do ponto de vista evolutivo, faz sentido evitar
contato com pessoas acometidas por doenças infecciosas, graças à aversão inata
por sinais visíveis, como pústulas.
Menos crível seria que visões aversivas
disparassem a produção de células do sistema imune para predispor o corpo ao
combate contra patógenos.
Serino formulou a hipótese de que respostas neurais
antecipatórias põem o sistema imune de prontidão.
Empregando óculos de
realidade virtual, apresentaram-se a alguns voluntários imagens de faces com
sinais de infecção, a várias distâncias aparentes, enquanto outros encaravam
rostos saudáveis.
Aparelhos de eletroencefalografia e de
ressonância magnética funcional, em paralelo, captavam quais áreas do cérebro
dessas pessoas se ativavam.
Um padrão detectado foi o acionamento da chamada
rede de saliência, interconexão de regiões cerebrais encarregada de detectar e
filtrar estímulos incomuns, incluindo ameaças.
Também se mostraram ativas áreas associadas com
respostas imunológicas. A equipe colheu ainda sangue dos participantes para
verificar se aumentava o nível de hormônios e biomarcadores indicativos de
inflamação.
Este é um resumo muito pobre da pletora de
variáveis e indicadores controlados no estudo, que tem 19 páginas.
Os autores
concluem que a infecção fictícia apresentada por realidade virtual foi capaz de
levar a mente a exercer um efeito direto sobre o corpo, ativando defesas contra
doenças.
"O sistema imune comportamental evoluiu para
minimizar respostas de falsos-negativos e é sofisticadamente sensível a
indícios que se assemelham superficialmente aos sintomas e sinais de infecções
patogênicas", escreveram.
Estamos todos aprisionados na dicotomia mente/corpo, como dois planos de
realidade com pouca ou nenhuma interação causal mútua.
É comum falar em males
psicossomáticos, verdade, mas bem mais raro que o cérebro –afinal, um órgão
como qualquer outro– possa agir no sentido oposto, produzindo saúde e não
doença.
Na rejeição da agência reguladora norte-americana FDA
para a psicoterapia assistida por MDMA (ecstasy), há um ano,
terapeutas da empresa Lykos foram criticados por pressupor uma
"inteligência interna de cura". Foram acusados de promover um culto
místico, em lugar de fazer ciência.
Talvez os defensores de terapias psicodélicas não estivessem tão distantes
assim da realidade.
Se o cérebro tem capacidade inata de combater ameaças
físicas, por que não seria também inteligente o bastante para dissolver traumas
com ajuda de compostos químicos? –ocorreu-me ao ler o lindo artigo de Serino
&cia.
MARCELO LEITE - jornalista de ciência e ambiente, autor de
“A Ciência Encantada de Jurema"