O cérebro segue a onda do estômago
- A atividade do cérebro varia conforme a do estômago
- O resultado é um convite periódico a uma autochecagem
Quem
diria: acabo de sair da minha primeira reunião científica sobre consciência, de
um grupo internacional financiado por uma instituição canadense. Fui convidada
para falar sobre evolução do cérebro e quais seriam os animais que têm consciência.
Mas
o assunto da minha palestra fica para depois, porque primeiro quero contar a
coisa mais bacana que aprendi: a atividade do cérebro varia conforme os ritmos
do coração, da respiração, e também do estômago.
Os
dois primeiros eram de se esperar. Vários estudos já mostraram que movimentos
rápidos dos olhos são muito mais prováveis durante a sístole cardíaca (uma
"batida"), quando o átrio e depois o ventrículo se contraem, do que
entre duas batidas do coração.
Movimentos espontâneos em geral também são mais
prováveis logo após uma inspiração.
A razão é provavelmente a maior
excitabilidade do córtex cerebral nesses momentos –o que naturalmente pede a
pergunta seguinte, ainda sem resposta: por que o córtex cerebral é mais
excitável durante a sístole ou inspiração?
O que eu não esperava era ouvir que várias áreas do
córtex cerebral, inclusive as regiões necessárias para a introspecção e
autoconsciência, flutuam em atividade junto com o estômago.
A descoberta é de
uma colega dos tempos do doutorado, quando nós duas estudávamos a fisiologia do
cérebro e as ondas cerebrais, e que para minha agradável surpresa faz parte do
grupo reunido em Montreal, para quem eu fui falar.
Catherine Tallon-Baudry é hoje pesquisadora do
Instituto de Ensino e Pesquisa Médica (Inserm) em Paris, na França, onde continua estudando as ondas de
atividade elétrica do cérebro, que tanto sobem e descem em amplitude em cada
ponto do cérebro como se espalham, exatamente como as ondas do mar.
Acostumada
a pensar em sequências de atividade, Catherine descobriu o que os outros não
viram, porque só olhavam para as partes do cérebro que ficam mais ou menos
ativas ao mesmo tempo: com cada contração do estômago, certas regiões do córtex
cerebral se tornam mais ativas em sequência, uma depois da outra.
As regiões corticais ativadas em onda pelo estômago incluem
partes da rede autorreferente, que amarram nossa atividade mental ao nosso
lugar no espaço-tempo e ancoram o conjunto na percepção do próprio corpo.
Essas
estruturas formam o que outros pesquisadores chamam de "rede padrão"
(default), porque foram descobertas por serem as partes do córtex que estão
mais ativas quando não se está engajado com o mundo, ao contrário de todo o
resto do córtex.
Na prática, contudo, são essas estruturas que tornam possível
o pensamento autorreferente, o lindo "pensar com os próprios botões"
do português que é muito mais adequado e eloquente do que o
"daydreaming" do inglês.
Pois
Catherine descobriu que parte da rede autorreferente cresce em atividade a cada
20 segundos mais ou menos, sempre em um mesmo momento do ciclo gástrico entre
duas ondas de contração do estômago, que acontecem o tempo todo com essa mesma
periodicidade, tendo-se comido recentemente ou não.
A
implicação é interessantíssima: de 2 a 4 vezes por minuto, o estômago nos
convida a um momento de autochecagem e reflexão.
Como o estômago não para,
ninguém se esquece completamente da vida tempo demais.
SUZANO
HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)