Escrever é verbo que briga com o sujeito
No ofício da
literatura, linguagem é mais do que meio: é princípio e fim
A literatura cria
à medida que é escrita as regras pelas quais exigirá ser lida. É por isso que o
terreno nunca vai estar inteiramente mapeado; o risco é parte inseparável do
jogo.
Se há algo de "universal" aí, é negativo: uma permanente
insatisfação parece ser comum a gente de variadas épocas e escolas.
O raciocínio não se aplica a quem lida com a
linguagem como mero instrumento. "Profissionais do texto" que miram
um objeto existente fora do mundo da linguagem podem se sentir plenos ao
informar, relatar, dissertar, argumentar, resumir, requerer, inventariar etc.
Não por acaso, são essas as funções da escrita em que a IA já se tornou competente.
Na escrita criativa não se tem a mesma sorte. A
insatisfação eterna sugere um ajuste precário entre sujeito e verbo,
"escritor" e "escrever".
É provável que exista um núcleo
disfuncional em tudo isso, aquilo que bota o motor para rodar.
Qualquer que seja o fenômeno psíquico que leva
alguém à escrita, será informação de interesse para quem escreve, mas
irrelevante para quem lê.
O propósito terapêutico que possa ser extraído do
conhecimento da ferida anímica que provoca o texto não importa no mundo do
texto.
O propósito estético da escrita literária não é
apenas desvinculado de seu eventual propósito clínico; é, em certo sentido, o
contrário dele. Olha para o lado oposto: para fora do sujeito, para o mundo das
palavras.
Então os escritores são todos uns neuróticos?
O
romancista americano E.L. Doctorow tem uma frase famosa que
sugere distúrbio mais grave: "Escrever é uma forma socialmente aceita de
esquizofrenia". Nesse ponto cabe ter cautela.
Como metáfora, a coisa tem
sua utilidade –quem escreve pode mesmo "ouvir" vozes dentro da
cabeça.
Contudo,
deve-se evitar a tentação de associar arte e loucura para dar ares malditos,
heroicos, messiânicos ou mágicos ao que é apenas deformação profissional, boca
torta do cachimbo.
Embora
possa parecer, nada disso tem a ver com uma visão romântica da literatura.
Escrever é só um ofício entre tantos, mas em certos aspectos não se assemelha a
nenhum outro –o que é natural.
Cada tipo de trabalho tem suas peculiaridades, como
sabem o vigia noturno que aprende a cochilar sem pregar o olho e a bailarina clássica que evita calçar
sandálias abertas para não exibir os pés castigados na dolorosa disciplina da
leveza.
Não é por esoterismo, frescura ou doença mental que
escritores são eternos insatisfeitos. É que em seu trabalho a linguagem, além
de meio, é princípio e fim.
Mais até: é drama, palco, cenário, elenco, plateia,
bilheteria, a rua onde se situa o teatro, a cidade em volta da rua, o país em
volta da cidade e por aí vai.
Batalha que se perde de saída. Implosão e explosão
ao mesmo tempo. Um disparate. Arte.
SÉRGIO
RODRIGUES
- escritor e jornalista, autor de "Escrever
É Humano" e "O Drible"