Por que a sua
probabilidade de morrer dobra a cada oito anos?
Celina
da Costa Silva
Conselheira
| Conselheira Fiscal | CCoAud IBGC | COAUD | ICSS | Comitê | Gestão de Riscos |
Controladoria | Atuária | IFRS | USGAAP | SUSEP
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Uma
lei de 1825, um atuário improvável e o que a matemática do envelhecimento
revela sobre os limites da longevidade.
Há
uma regularidade perturbadora escondida em toda tábua de mortalidade.
A
partir mais ou menos dos trinta anos, a sua probabilidade de morrer dobra a
cada oito anos de vida.
Não
é força de expressão. É uma lei matemática, tão estável que ainda hoje sustenta
o preço de praticamente todo seguro de vida e todo plano de previdência do
mundo.
Quem
a descobriu foi um homem improvável.
Benjamin
Gompertz nasceu em Londres em 1779. Proibido de entrar na universidade por ser
judeu, estudou sozinho, lendo Newton por conta própria.
Chegou a ser recusado
por uma seguradora pelo mesmo motivo. Ainda assim, tornou-se membro da Royal
Society e atuário da Alliance Assurance.
Em 1825, publicou um artigo com um
título que parecia pretensioso demais para a época: sobre a natureza da função
que expressa a lei da mortalidade humana.
O
que ele encontrou foi isto.
A
mortalidade não sobe aos poucos com a idade. Ela sobe de forma exponencial.
Aos
vinte e cinco anos, o risco anual de morte de uma pessoa gira em torno de um em
três mil. Aos trinta e três, dobra. Aos quarenta e um, dobra de novo.
E assim
segue, silenciosa e implacável, dobrando a cada oito anos, até que a curva sobe
tão rápido que quase nenhum ser humano ultrapassa os cento e vinte anos.
Gompertz
deu à morte uma fórmula. E, com ela, deu uma base científica ao cálculo de todo
o nosso futuro financeiro coletivo.
Mas
o que me parece mais importante nessa história não é a fórmula. É o que ela
revela sobre a longevidade que hoje celebramos.

Vivemos,
em média, muito mais do que nossos bisavós. É verdade. Só que a razão desse
ganho quase nunca é bem compreendida.
Décadas
depois de Gompertz, um atuário chamado Makeham acrescentou à lei um segundo
termo. Uma parcela de mortalidade que não depende da idade. As mortes por
infecção, por acidente, por parto, por fome. As que atingem o jovem e o velho
da mesma forma.
E
aqui está a chave.
O
que estendeu a vida humana no último século não foi vencer o envelhecimento.
Foi vencer a morte precoce.
Saneamento,
vacinas, antibióticos, segurança no trabalho. Reduzimos de forma drástica a parcela
de Makeham, a mortalidade que nada tinha a ver com envelhecer.
Empurramos muito
mais gente até perto do teto natural. Mas quase não mexemos na inclinação de
Gompertz, o ritmo com que o próprio envelhecimento nos alcança depois dos
trinta.
São
duas longevidades muito diferentes.
E
confundir uma com a outra custa caro.
Uma
coisa é levar mais pessoas a viver os anos que o corpo humano sempre permitiu.
Outra, muito mais difícil e ainda não realizada em escala, é mover o teto.
Quando o discurso da longevidade promete que todos viveremos com folga muito
além dos cem, ele com frequência vende a segunda como se fosse a primeira.
Passei
a carreira lidando com reservas e projeções de longuíssimo prazo, e aprendi a
respeitar as curvas exponenciais. Porque a mente humana não as enxerga.
Nós
pensamos em linha reta. O envelhecimento, o juro composto, o risco que se
acumula, a dívida, a erosão de uma reputação.
Quase tudo o que de fato decide o
destino de uma pessoa ou de uma organização é exponencial. E é exatamente aí
que a nossa intuição falha.
Talvez
a maior lição de um atuário não seja sobre a morte. Seja sobre a humildade
diante daquilo que cresce mais rápido do que conseguimos sentir.
Gompertz,
barrado das salas de aula, passou a vida decifrando uma curva que a maioria de
nós prefere não encarar. Duzentos anos depois, ela continua ali, pedindo a
mesma coisa que sempre pediu.
Que
a gente distinga a longevidade que pode honestamente prometer daquela que
apenas gostaria de acreditar.
E
que decida, em cada reserva, em cada plano, em cada estratégia, olhando para a
curva verdadeira. Não para a linha reta que seria mais confortável desenhar.
