Não pergunte ao ChatGPT
E vamos parar de
chamar algoritmos estatísticos de inteligência artificial
A notícia mais assustadora que eu li neste mês que
acabou não tinha nada a ver com Trump nem Bolsonaro, nem mesmo com a fome em
Gaza, que apenas atesta que é possível ser desumano mesmo tendo a capacidade
biológica de 16 bilhões de neurônios corticais para tomar boas decisões que
levam o bem alheio em consideração.
A notícia que mais me assustou foi outra:
nossos jovens estão recorrendo a algoritmos estatísticos para buscar conselhos,
obter apoio emocional e tomar decisões –além, é claro, de fazer o dever de
casa.
Segundo a pesquisa em questão,
metade dos adolescentes nos EUA usa regularmente plataformas e aplicativos de
"inteligência artificial" como
"amiguinhos digitais".
Como se não bastasse usar, um terço dos jovens
consultados já recorreu a algoritmos estatísticos para discutir assuntos
importantes, e 31% dos jovens consideram que conversar com esses algoritmos é
tão bom quanto falar com amigos de verdade.
A filha adolescente do meu hóspede
confirma: ela usa ChatGPT para pedir conselhos,
recomendações e ideias.
Isso
é assustador em um nível completamente diferente dos temores de obsolescência
de habilidades humanas causada por tecnologia que remontam a Platão, do tipo
"os livros vão acabar com a memória oral", "o rádio vai acabar
com a leitura", "a internet vai acabar com os jornais".
Livros,
rádio, jornais e mesmo o corpo de dados acumulado, documentado, catalogado e
disponibilizado via internet têm se mantido fiéis à intenção dos humanos que
observaram, pensaram e geraram o conhecimento comunicado por esses meios.
O
mais importante, contudo, é que o uso das informações e conhecimento veiculados
depende de pessoas que pensam e que, com suas vontades e valores humanos,
oferecem compreensão, amizade e conselhos com intenção, empatia, e preocupação
com o futuro.
Algoritmos,
não. A tal da "inteligência artificial" que os jovens consultam, que
de inteligência não tem nada, pois não tem nem oferece flexibilidade, é apenas
um algoritmo estatístico.
Empoderados pela vasta capacidade computacional que a
cognição humana desenvolveu em silicone, e às custas de muita energia, esses
algoritmos mapeiam a probabilidade de sequências cada vez longas de palavras.
Dado um prompt na forma de pergunta ou pedido, as "respostas" que os
algoritmos estatísticos cospem são apenas novas sequências de palavras
relacionadas ao prompt que refletem sua probabilidade de incidência no corpo de
dados que treinou o algoritmo.
Ou seja: algoritmos estatísticos treinados por comentários de
redes sociais, que contêm o pior que a humanidade é capaz de produzir, vão
cuspir de volta conselhos odiosos, incitação ao crime e ao suicídio
simplesmente porque isso está representado nos dados cujas probabilidades foram
mapeadas pelos algoritmos.
Algoritmo
não sente, não sofre, não pensa. Algoritmo não é amigo de ninguém.
Mas
algoritmo vendido como "inteligência artificial", com apelido
bonitinho –ChatGPT, Claude – e que fala com a gente através de uma tela, como a
gente já se acostumou que os poucos amigos de verdade também falam, dá às
BigTechs um exército cada vez maior de jovens prontos a oferecer seus cérebros,
e pior, suas vidas, a serviço dos seus bolsos.
É
preciso explicar aos jovens que não há inteligência alguma em usar algoritmos
estatísticos como substituto a outros humanos.
Já os adultos podem fazer duas
coisas imediatamente: só chamar algoritmo estatístico pelo que é, e escolher
não usar algoritmo estatístico.
Em seu lugar, sugiro a Wikipedia, que continua
bem documentada por indivíduos pensantes e fazendo a gente pensar.
SUZANA
HERCULANO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da
Universidade Vanderbilt (EUA)