Como não perder a ternura em tempos de cólera
- Apesar de tanto ódio, quero escrever sobre o amor
- Eu sou mesmo meio Poliana. Qual é o problema?
No
Dia Internacional das Pessoas Idosas, 1º de
outubro, três dias antes do primeiro turno das eleições presidenciais, resolvi escrever minha
coluna para a Folha sobre ser "meio Poliana".
Neste
dia tenso e intenso, apesar da preocupação, consegui trabalhar no meu novo
projeto de pós-doutorado sobre escrita de si, memória e legado. Apesar da
angústia, consegui fazer meus exercícios na pracinha e conversei bastante com
Clarice, de 90 anos. Apesar do medo, consegui dar uma entrevista para a rádio
CBN sobre o Dia das Pessoas Idosas. Apesar do sufoco, consegui respirar.
Sempre
fui criticada por ser "meio Poliana". Algumas víboras peçonhentas
tentaram me diminuir, dizendo que, além de ser simplesinha e calminha, sou
boazinha, meiguinha e docinha.
Mas
preciso reconhecer que sou mesmo "meio Poliana". Sempre busco
descobrir um caminho de transformação em tudo o que me acontece de ruim.
Da
merda, produzo adubo. Da dor, escrevo um livro. Da insônia, tenho uma ideia
para a coluna na Folha. Da gritaria, exerço a
tolerância. Da saudade, descubro novos amores. Da traição, estudo os casais
felizes. Do fracasso, começo tudo do zero. Da inveja, ligo o botão do foda-se.
Do medo, invento a minha bela velhice. Da vergonha, crio o movimento das Velhas
Sem Vergonhas. Da finitude, construo o meu legado.
Desde criança busco obsessivamente transformar minha dor em
beleza, meu medo em coragem e minha vergonha em projetos de vida.
Algumas vezes consigo até enxergar as virtudes dos
meus piores defeitos, como aprendi com Clarice Lispector: "Até cortar os
próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que
sustenta nosso edifício inteiro."
Sempre me senti um "peixe fora d’água",
um bicho do mato, triste, angustiada e ansiosa demais. Aprendi a me proteger na
minha toca para sobreviver aos espancamentos e gritos do meu pai: "Mirian,
você é uma bosta!"
Não foram poucas as vezes que me disseram que eu
precisava de medicamentos para me curar do meu temperamento melancólico. Mas
meu lado Poliana me provou que minhas experiências mais dolorosas poderiam se
transformar em determinação, potência e coragem para mudar o meu mundo.
Minha paixão por escutar bonito os mais velhos,
minha obsessão em escrever sobre a velhofobia e até minha capacidade de ficar
completamente sozinha por dias e dias, sem dormir e sem comer, que muitas vezes
enxerguei como defeitos, faltas e imperfeições, acabaram se tornando forças
fundamentais para inventar a minha antropologia malcomportada.
Em
tempos de cólera, tem sido cada vez mais difícil ser "meio Poliana".
Minhas postagens no Instagram são um bom exemplo. Cada vez que escrevo sobre o
amor na maturidade, perco dezenas de seguidoras. Muitas só estão interessadas
em postagens com sangue, raiva e ódio.
Meu
lado Poliana, infelizmente, ainda não conseguiu encontrar nada de bom nesse
ambiente de tanto ódio e violência. Não consigo dormir, de tão angustiada e
impotente com tudo o que está acontecendo no Brasil e no mundo.
Clarice,
mais uma vez, me salva da depressão: "Uma das coisas que aprendi é que se
deve viver apesar de. Apesar de, se deve comer. Apesar de, se deve amar. Apesar
de, se deve morrer. Inclusive muitas vezes é o próprio apesar de que nos
empurra para a frente. Foi o apesar de que me deu uma angústia que insatisfeita
foi a criadora da minha própria vida".
Apesar
de tanto ódio e desesperança, preciso continuar a escrever com ternura.
Eu
sou mesmo "meio Poliana". Qual é o problema?
MIRIAN
GOLDENBERG
| antropóloga e professora da Universidade
Federal do Rio de Janeiro