A importância de manter a cabeça quente no inverno


A importância de manter a cabeça quente no inverno

  • Quem começa a esfriar não consegue mais pedir ajuda
  • Cabe a quem ainda tem o cérebro quentinho cuidar do cérebro dos outros

Nashville ainda está tateando sua saída da tempestade de gelo que nos atingiu no fim de semana passado. Para quem cresceu nos trópicos como eu e ainda pensava que montanhas de neve em -15°C são o que há de mais temível no frio, a tempestade foi lição de vida. 

Perigo muito maior do que a neve é o gelo, que tira dos humanos modernos, que dependem de eletricidade e toda a tecnologia que ela alimenta, a capacidade de se aquecer.

Todo o resto é luxo: comida quente, água quente para tomar banho, luz para ler ou jogar cartas, internet para passar as horas. 

O problema da chuva gelada que gruda nas árvores e fios, e vira gelo é que, no frio extremo, o gelo continua a crescer tirando umidade do ar e formando capas de até um centímetro de espessura ao redor dos fios. 

O resultado é belíssimo quando sai o sol e as árvores-picolés-diamantes dividem a luz em sete cores —mas trágico. Sob o peso de tanto gelo, árvores e fios elétricos se partem.

E assim mais de 200 mil casas, cerca de metade de Nashville, ficaram sem luz no último domingo, com -10°C durante o dia e -15°C durante a noite. 

Quatro dias depois, ainda são mais de 90 mil casas sem eletricidade, necessária para a calefação de cada vez mais casas, que assim ficaram sem aquecimento, correndo o risco de seu interior se igualar ao exterior em temperatura.

O mesmo aconteceria com o cérebro, se não fosse ele produzir seu próprio calor. 

Mas o cérebro perde calor para o corpo e, se o corpo perde calor para o ar frio dentro de casa, em breve o cérebro também começará a esfriar —e um cérebro que não mantém sua temperatura é um cérebro que não mantém sua consciência.

Aristóteles achava que a função do cérebro, densamente irrigado por sangue, era esfriar o corpo. 

Hoje sabemos que, muito mais do que um simples radiador, sem cérebro um corpo não faz mais nada: se você anda, pensa, sonha, constrói ou gasta seu tempo rolando tela para dar dinheiro para o Zuckerberg, é graças ao seu cérebro. 

Mas continuamos pensando que é o corpo que produz o calor que mantém nosso sangue quente e o cérebro apenas se beneficia do produto.

Meus leitores habituais já sabem que eu discordo. Financiado por um coração que o provê de sangue rico em oxigênio, o cérebro usa toda a energia que pode em sua atividade, gerando calor no processo, que o mantém em média quase dois graus mais quente do que o resto do corpo. 

Essa temperatura elevada constante, no limite do calor que o cérebro produz e suporta, é o que mantém nossa capacidade de comportamento consciente. 

Mesmo quando a temperatura do ar cai e o corpo começa a esfriar, o cérebro continua quentinho (gorro ajuda muito!), que é o que importa.

Por isso fiquei preocupadíssima quando soube que meus amigos, com três crianças pequenas em casa, estavam no segundo dia sem luz e calefação, 7°C dentro de casa. 

Talvez já sob o efeito do cérebro começando a resfriar, eles estavam em modo-sobrevivência, amontoados debaixo das cobertas. 

Não sosseguei até conseguir, por zaps incessantes, os fazer procurar abrigo com os amigos mais próximos antes que escurecesse. Duas horas depois veio o alívio e a admissão: estavam se sentindo miseráveis, mas não sabiam.

Não há como saber quando o cérebro começa a esfriar. Cabe aos outros, com o cérebro ainda quentinho, advogar pelo abrigo para quem está sentindo frio.

SUZANA HERCULADO-HOUZEL - bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)

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