Minha filha e o medo da morte
- Aos 5 anos, minha criança disse que não quer ser adulta
- 'Mamãe, eu não quero crescer. Porque, quando eu crescer, você vai
morrer'
Nesta
segunda (8) fez cinco anos que a minha versão básica, modelo simples, sem
acessórios, morreu. Há cinco anos, eu e meu barrigão entrávamos num hospital
vazio, enquanto 2.000 pessoas morriam de Covid por dia no Brasil.
Eu monitorava os
batimentos cardíacos na tela, pela primeira vez pensando que, durante 40
semanas, tive dois corações batendo dentro do mesmo corpo. Agora um deles
moraria fora e nunca mais eu seria a mesma pessoa.
Estreei
nesta coluna também num dia 8, quando minha filha fez oito meses. No primeiro texto sobre ela, escrevi que a
mudança operada pelo seu nascimento foi tão profunda que era como se o conjunto
formado por cada uma das minhas células não fosse mais o mesmo. Como um Lego
que usa as mesmas peças, mas é montado de um jeito completamente novo.
"A
pessoa que sou agora tem tudo que eu era antes, mas o meu eu anterior, aquele
que não era mãe, morreu. Não vejo sentido em continuar procurando por ele.
Tentar fazer isso é imaginar um mundo em que minha filha não existe, nunca
existiu", escrevi.
Eu ainda não fazia a menor ideia de quão verdade
isso se tornaria nos anos seguintes. Ser mãe de um bebê é muito diferente de
ser mãe de uma criança cheia de opiniões e sentimentos.
O mundo como eu
conhecia se transformou de uma forma que eu jamais teria imaginado. E não teria
mesmo, porque a maternidade nunca esteve no meu radar.
A Beatriz me ensinou noções de prioridade e
urgência do cotidiano que teriam facilitado bastante a minha vida. Depois
que minha mãe quase morreu e que minha filha
nasceu, aprendi que o tempo passa e tudo termina. O óbvio é mesmo a verdade
mais difícil de enxergar.
"No tempo que já não existe, são suas todas as
horas", digo na canção que compus pra Beatriz. Foi mais ou
menos quando criei a expressão paradoxo do afeto.
Eu queria algo que explicasse
desejos de sucesso não desejados, agradecimentos pendentes, manifestações de
carinho, boa sorte e parabéns que nunca se concretizaram. Quanto mais quero bem
a alguém, menor a chance de que receba a mensagem que eu gostaria de mandar.
Tudo aquilo que imaginei falar fica guardado e quem importa
tanto às vezes não recebe nada. Pessoas menos próximas ganham um voto de
felicidade pouco poético, enquanto os mais importantes não recebem poesia
alguma, porque ela está presa na minha cabeça esperando a lapidação que nunca
vem. Afeto em paradoxo. O paradoxo do tempo.
Anteontem, quando estava colocando minha filha de 4
anos virando 5 para dormir, ela me disse que não quer ser adulta. Eu não dei
muita importância, Beatriz já disse outras vezes que ser adulto é muito chato.
Mas não era isso. "Mamãe, eu não quero crescer. Porque, quando eu crescer,
você vai morrer". Tão pequena e já com noções tão apuradas de tempo.
Tento ser sempre honesta sobre a morte, mas às
vezes eu só consigo garantir que não vou morrer tão cedo, com todo o desejo do
meu coração de que não esteja contando uma mentira.
Ela quis mais. "Quanto
tempo você ainda vai sobreviver?", perguntou séria. Fiquei reflexiva,
pensando no verbo. Sobreviver. Estou tão acostumada a falar
em sobrevida de pessoas com doenças graves que
a palavra me causou estranhamento. Sobreviver soa como algo menor.
Mas não
deveria. Talvez a sobrevida seja comum a todo mundo que enfrenta a própria
finitude com seriedade, porque não existe caminho de volta para o engano.
"A gente não tem como saber, filha, mas ainda
vou sobreviver por muito tempo. Por que você está pensando nisso agora?".
"Porque o vovô Dalton morreu. E eu tenho medo
de ficar sozinha." "Você nunca vai estar sozinha." Isso eu posso
prometer.
Faz pouco mais de um ano que minha filha viveu seu
primeiro luto. A ideia de que as pessoas não existem mais fora da nossa memória
parece ter sido bem processada. Mas, de tempos em tempos, ela se depara com a
tristeza da ausência.
Já me perguntaram se, depois da maternidade, tive mais medo de morrer, algo bem comum às mães. Não tive. O nascimento da minha
filha inaugurou um novo medo, mas porque eu passei a ter mais um amor, imenso,
que podia perder. O medo da sua morte ocupou tudo, nunca sobrou espaço para
outra coisa.
Anteontem foi diferente. Imaginei o tamanho da dor
que Beatriz sentiria se eu morresse. E a dor dela é ainda maior que a minha,
simplesmente porque é dela e tudo nela importa mais.
Conforta-me saber que minha filha é a única pessoa
que escapa ao paradoxo do afeto. Tudo que lhe diz respeito é urgente. Nenhuma
palavra que demande aprimoramento se torna ausência diante dela.
Eu não fico
pensando que talvez não tenha oportunidade de vê-la crescer; mas vivo com a
intensidade de quem sabe que isso pode acontecer. A gente
torna os momentos comuns mais felizes assim.
E, quando o futuro vier, como tem
vindo há cinco anos, teremos as melhores memórias de quem viveu com plenitude
cada presente.
CYNTHIA ARAÚJO – doutora em Direito, autora de 'A Vida
Afinal: Conversas Difíceis Demais para se Ter em Voz Alta'