Para fazer da IA uma ferramenta
- Usar uma ferramenta significa alcançar uma segunda ação, não só
resolver um problema
- Filme Justiça Artificial mostra a IA a serviço de qu
Los Angeles foi assolada por tanta
criminalidade que a cidade instalou um sistema de justiça por inteligência artificial (IA), uma corte
chamada Mercy (Misericórdia), para coletar e avaliar todos os dados acessíveis
pela internet —mídia social, vídeos e mensagens em telefones,
câmeras de segurança, relatório legista e outros documentos policiais— para julgar e
sentenciar criminosos em apenas 90 minutos.
O
sistema parece promissor aos olhos do detetive que mediou a criação da corte de
IA, até... ele ser preso, acusado de ter matado sua esposa.
A corte então lhe
dá os tais 90 minutos para provar sua inocência, e o que se segue é o filme
"Justiça Artificial" (Mercy, no original), do diretor Timur
Bekmambetov.
O que começa como uma reedição do "Minority
Report", do Spielberg, vira um exercício interessante
sobre as limitações da inteligência artificial e
como seu valor depende do uso que se faz dela.
Poucos dias atrás este era o tópico da reunião
semanal do grupo de Estudos Sobre Evolução na Universidade Vanderbilt, e dias antes, do
seminário do meu próprio departamento: o que constitui bom uso de IA por
cientistas?
O palestrante, um colega antes entusiasta do uso de IA para fazer
descobertas científicas, testou o AutoDiscovery, ferramenta do Allen Institute
for AI (Ai2) que varre a literatura como se isso fosse suficiente para gerar
novos avanços.
Sua conclusão: os algoritmos sabem deduzir (aplicar uma regra
geral) e induzir (testar casos para achar uma regra), mas não sabem abduzir,
que é gerar novas hipóteses testáveis.
Achar
que basta olhar para todos os dados para "revelar a verdade do mundo"
é uma falácia manjada, da qual o finado Douglas Adams bem fez troça em seu "Guia do Mochileiro das
Galáxias".
No livro, a
humanidade reúne seus recursos para construir um supercomputador que por fim
revelará a resposta final sobre "a vida, o universo e tudo mais".
A
resposta é 42, e a humanidade precisa construir outro supercomputador para
destrinchar qual exatamente é a pergunta para a qual a resposta é 42. O
supercomputador é o planeta Terra.
Como
Douglas Adams bem disse, entender o mundo começa com fazer boas perguntas e
continua ao empregar ferramentas para achar respostas.
Mas, como explico aos
alunos do grupo de evolução, usar uma ferramenta é muito mais do que interagir
com um objeto, por exemplo fazendo uma pergunta para obter uma resposta.
Usar
uma ferramenta significa interagir com um objeto para alcançar (ou
"desbloquear", como nos videogames) uma segunda ação. Bater um
martelo na parede não é usá-lo como ferramenta; bater o martelo em um prego
para enterrar o prego na parede é.
Usar a IA como ferramenta para fazer revelações
sobre o mundo, portanto, requer mais do que consultá-la como um oráculo ou
colega omnisciente, editor de texto ou fashionista.
Só usa IA como ferramenta
quem tem hipóteses em mente ("a parede vai segurar o prego, que vai
segurar o quadro"), testáveis por meio da oportunidade daquela segunda
ação que a ferramenta oferece.
E quem tem hipóteses testáveis sobre o mundo é quem
tem valores na reta, seja um quadro bonito, um enigma que importa para a gente
ou a execução iminente por uma corte de IA.
Perguntas sobre o mundo dos humanos
envolvem valores humanos, que a IA da corte Misericórdia não tem como entender
– mas, quando ela vira uma ferramenta a serviço do detetive, a história é
outra. O filme, disponível na Amazon Prime, vale a pena.
SUZANA HERCULANO-HOUZEL | bióloga
e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA)