Como saber a vantagem das escolas integrais?
- Brasil tem plano arrojado para ensino integral, mas carece de
mecanismos de monitoramento e de avaliação de impacto
- Precisamos definir se a permanência de 35 horas na escola é
suficiente para chamá-la de integral
Temos
ampla evidência da grande vantagem da educação integral no Brasil sobre o
ensino regular.
A
Secretaria Estadual de Educação de Santa Catarina, por exemplo, ofertou o
Ensino Médio em Tempo Integral (Emiti) a partir de uma metodologia do Instituto
Ayrton Senna em 2018 e 2019, e a iniciativa foi avaliada com método padrão
ouro.
Os resultados são surpreendentes: em dois anos foram 16 pontos a mais na
escala Saeb em matemática em relação ao ensino regular, mais do que o triplo
visto no estado naquele momento.
Estudos
sobre o modelo de integral de Pernambuco também encontraram resultados
positivos. Importante ressaltar que essas avaliações experimentais foram feitas
até 2020, em cenários de poucas matrículas.
De
acordo com o Ministério da Educação, o ensino integral em 2024 contemplou 22,9%
das matrículas no país. O novo Plano Nacional de Educação (PNE) estabelece
a meta de atender 50% até 2036. O Brasil escolheu mais do que dobrar os
estudantes nessa modalidade na próxima década.
A
partir da vantagem identificada cientificamente até 2019, tudo indica que foi
uma decisão acertada para o nosso futuro. Talvez nos falte um plano para
conhecer os resultados no futuro: quais serão os sistemas de
monitoramento e de avaliação sobre os resultados dessa decisão ao longo dos anos até 2036?
Começando pelo monitoramento: a primeira etapa de
um bom sistema envolve uma definição do que se deseja monitorar. O que é uma
educação integral? Faltam estatísticas que indiquem qual escola é integral, em
parte, talvez, pela falta de uma definição operacional desse conceito.
Uma escola integral é aquela que desenvolve os
estudantes em diversas dimensões? Atualmente, o Censo Escolar denomina e
monitora as escolas em tempo integral pela proporção de matrículas em que os
alunos permanecem 7 horas diárias ou 35 horas semanais.
Mas a permanência de 35
horas na escola é suficiente para chamá-la de integral? Sem essa definição
clara e sem o acompanhamento desses componentes pelo Censo Escolar, teremos
desafios de monitoramento.
Apesar de muito importante, o monitoramento não é
suficiente. Somente a avaliação de impacto consegue responder se uma proposta
alcançou os efeitos dos resultados (bem definidos) que esperávamos dela.
Nesse sentido, temos algum conhecimento sobre o que
aconteceu até 2019 e temos um plano de expansão. Quais avaliações serão feitas
para avaliar o impacto dessa meta?
Como saberemos em qual medida a educação
integral sustenta os resultados que encontramos até 2019 ao longo do processo
até 2036? Precisamos de um plano de avaliação de impacto dessa decisão, de
preferência anual, assim como Santa Catarina fez no passado. Caso contrário,
não saberemos a vantagem do efeito isolado do integral.
No momento, temos um sonho: todos os brasileiros
aprendendo e se desenvolvendo o mais rápido possível. Demos enormes passos
nessa direção, encontramos soluções promissoras, advogamos por elas e nos
comprometemos a levar em frente o que dá resultados para mais estudantes.
Para além de celebrarmos todas essas conquistas, urge
termos instrumentos de monitoramento e de avaliação da educação que estamos
construindo. São esses mecanismos que nos darão base para saber quais as
melhores decisões ou quais os ajustes serão necessários.
A educação é importante demais para termos um plano
arrojado sem sistemas de monitoramento e de avaliação de impacto igualmente
arrojados.
LAURA MÜLLER MACHADO | mestre em Economia Aplicada pela USP, é
professora do Insper e foi secretária de Desenvolvimento Social do Estado de
São Paulo