Mulheres
50+ ampliam carreira e desafiam o etarismo
Longevidade, experiência e transformação das competências colocam
profissionais maduras no centro das discussões sobre liderança, diversidade e
futuro do trabalho.
Aos 50 anos, uma mulher
brasileira ainda pode ter duas ou três décadas de vida profissional pela
frente.
Apesar dessa nova realidade demográfica, parte do mercado continua
tratando a maturidade como sinal de encerramento da carreira — uma percepção
que desconsidera o aumento da longevidade e o repertório acumulado por essas
profissionais.
Em 2024, a expectativa de vida
das brasileiras chegou a 79,9 anos. Para aquelas que alcançam os 60, a
estimativa é de mais 24,2 anos de vida, em média.
O cenário amplia o tempo
disponível para trabalhar, liderar, empreender, estudar e construir novas fontes
de renda.
Para Denise Maidanchen, CEO da
Quanta Previdência, presidente do Lide Mulher SC e diretora da Uniabrapp,
os 50 anos não devem ser apresentados como uma tentativa de recuperar a
juventude, mas como uma etapa com características e possibilidades próprias.
“Os 50 não são os novos 30. São
os novos 50: com mais repertório, autonomia e tempo de futuro”, afirma a
executiva.
Brasileiras 50+ formam uma força econômica
O Brasil possui quase 34 milhões
de mulheres com 50 anos ou mais. O contingente evidencia que a maturidade
feminina não representa um nicho, mas uma parcela expressiva da população
profissional, empreendedora e consumidora.
Apesar dessa dimensão, a
estrutura tradicional das carreiras ainda foi desenhada com base em uma
sequência linear: formação, entrada no mercado, crescimento, aposentadoria e
afastamento da vida produtiva.
O aumento da expectativa de vida e as mudanças
no trabalho estão rompendo esse modelo.
As trajetórias tendem a incluir
diferentes formações, períodos de pausa, mudanças de profissão,
empreendedorismo, trabalho por projetos, posições em conselhos e combinações
entre emprego formal e atividades independentes.
Um levantamento da Maturi e da NOZ Inteligência,
com mais de 2 mil participantes, indicou que 70% das mulheres com mais de 50 anos estavam em transição profissional.
Entre os homens maduros, o índice ficou em 65%.
O resultado retrata os
respondentes da pesquisa e não deve ser automaticamente projetado para toda a
população.
Ainda assim, ajuda a mostrar que a maturidade pode ser marcada por
movimento e reinvenção, e não apenas pela preparação para a aposentadoria.
Etarismo limita recolocação e crescimento
A disposição para permanecer no
mercado não encontra sempre uma abertura equivalente nas empresas.
Levantamentos da EY e da Maturi indicam que parte relevante das organizações
brasileiras ainda está nos primeiros estágios da inclusão de profissionais 50+.
Em uma das pesquisas citadas por
Denise, nove em cada dez profissionais maduros buscavam recolocação, enquanto
as oportunidades dirigidas a esse público haviam diminuído. O cenário sugere um
descompasso entre a disponibilidade de talentos experientes e as práticas de
contratação.
O problema não se restringe às
vagas. O preconceito relacionado à idade também pode aparecer em promoções,
programas de desenvolvimento, processos de sucessão e decisões sobre
investimentos em capacitação.
O Mundo RH já mostrou que o etarismo expõe um atraso do mercado brasileiro,
especialmente em um país que envelhece, mas ainda associa juventude a inovação,
adaptabilidade e potencial.
Para as mulheres, a barreira
pode ser dupla. Além dos estereótipos relacionados à idade, elas continuam
enfrentando desigualdades de gênero na progressão profissional e no acesso à
alta liderança.
Experiência ganha importância diante da IA
O avanço da inteligência
artificial poderia alimentar a percepção de que profissionais experientes estão
menos preparados para a transformação tecnológica.
Para Denise, entretanto, a
tecnologia aumenta a importância de capacidades construídas ao longo da
carreira.
Sistemas de IA conseguem
processar informações, reconhecer padrões e produzir conteúdos rapidamente.
As
organizações continuam precisando de pessoas capazes de interpretar contextos,
avaliar consequências, antecipar riscos e decidir quando não existe uma
resposta evidente.
“Quanto mais inteligência
artificial tivermos, maior será o valor do discernimento humano”, afirma.
O Fórum Econômico Mundial estima
que 39% das competências essenciais dos trabalhadores deverão mudar até 2030.
Pensamento analítico, resiliência, flexibilidade, liderança, influência social,
empatia e escuta ativa aparecem entre as habilidades valorizadas pelas
empresas.
Um estudo da Fundação Getulio
Vargas com 308 profissionais 50+ também identificou competências como mediação
de conflitos, perseverança, adaptabilidade e aprendizagem contínua.
Essas
características não surgem automaticamente com a idade, mas podem ser aprofundadas
pela exposição a diferentes ciclos profissionais e pessoais.
O desafio para o RH é reconhecer
esse repertório sem transformar a maturidade em um estereótipo positivo. Nem
toda pessoa mais velha possui as mesmas competências, assim como profissionais
de uma mesma geração não formam um grupo homogêneo.
A avaliação precisa
considerar formação, resultados, capacidade de aprendizagem e aderência às
necessidades da função.
Liderança feminina ainda enfrenta o “degrau
quebrado”
A maior permanência das mulheres
no mercado ocorre em um cenário no qual a ascensão à liderança continua
desigual. O relatório Women in the Workplace 2025 mostrou que, para cada 100
homens promovidos ao primeiro cargo de gestão,
93 mulheres receberam a mesma oportunidade.
Nos cargos de alta liderança, as
mulheres representavam 29% das posições de C-level nas organizações
pesquisadas.
Essa diferença nas primeiras promoções cria o chamado “degrau
quebrado”: quando menos mulheres avançam no início da trajetória gerencial, um
número menor fica disponível para chegar ao topo.
Aos 50 anos, muitas
profissionais já acumularam experiência em gestão, negociação, formação de
equipes e condução de crises.
Parte delas também precisou administrar
responsabilidades familiares e diferentes papéis sociais, vivências que podem
desenvolver priorização, escuta, organização e tomada de decisão em ambientes
complexos.
Essas experiências não devem ser
romantizadas ou utilizadas para naturalizar a sobrecarga feminina. Podem, no
entanto, compor um repertório relevante quando reconhecidas e convertidas em
competências profissionais.
Novas possibilidades depois dos 50
A longevidade está ampliando os
caminhos disponíveis para mulheres maduras. Além da continuidade em posições
executivas, crescem as possibilidades de atuação como conselheiras,
investidoras, mentoras, professoras, consultoras e empreendedoras.
As empresas podem apoiar esse
movimento com programas de reskilling, mentorias reversas, processos seletivos
sem limites etários implícitos, planos de sucessão intergeracionais e
oportunidades de mobilidade interna.
Também é necessário revisar a
linguagem das vagas. Expressões como “perfil jovem”, “energia de recém-formado”
ou “nativo digital” podem funcionar como filtros indiretos de idade, mesmo
quando o conhecimento necessário poderia ser adquirido ou já estivesse presente
em candidatos mais experientes.
Para Denise, diversidade
geracional não significa substituir jovens por profissionais maduros. O ganho
está na combinação entre diferentes perspectivas.
“As empresas mais competitivas
do futuro não serão formadas apenas por jovens nem apenas por profissionais
experientes, mas por aquelas capazes de combinar velocidade com discernimento,
tecnologia com humanidade e novas perguntas com conhecimento acumulado”,
avalia.
Longevidade também exige planejamento financeiro
Carreiras mais extensas e
aposentadorias que podem durar 25 ou 30 anos também aumentam a necessidade de
planejamento financeiro. A formação de reservas pode oferecer maior liberdade
para reduzir o ritmo, realizar uma pausa, estudar, empreender, cuidar de
familiares ou mudar de profissão.
A previdência pública, os planos
abertos e a previdência complementar fechada possuem regras, custos e
finalidades diferentes. A escolha depende da situação profissional, dos
objetivos e da capacidade financeira de cada pessoa.
Para as empresas, programas de
educação financeira e previdenciária podem complementar as políticas de
desenvolvimento de carreira. O cuidado, contudo, deve ser oferecer informação
clara e acesso a diferentes alternativas, sem presumir que todas as trabalhadoras
possuem as mesmas condições para poupar.
A mudança demográfica já está em
curso. A questão para o mercado não é se as mulheres continuarão
profissionalmente ativas depois dos 50, mas se as organizações estarão
preparadas para reconhecer, desenvolver e aproveitar essa capacidade.
Tratar a maturidade como fim de
carreira significa desperdiçar conhecimento em um momento no qual as empresas
dizem enfrentar escassez de talentos. Reconhecê-la como uma etapa produtiva
amplia as possibilidades das profissionais e fortalece organizações mais
diversas, preparadas e sustentáveis.
FRANCISCO CARLOS | jornalista especializado em carreiras,
gestão de pessoas e recursos humanos, e CEO do Mundo RH.