A matemática moderna foi sucesso ou fracasso?
- Legado vai muito além, trazendo para os currículos escolares ideias
como o conceito de função, base de inúmeras ferramentas matemáticas atuais
- Ensino passou a adotar linguagem mais precisa, com mais foco no
raciocínio e na demonstração
Nas
décadas de 1950 e 1960, o movimento da Matemática Moderna, iniciado nos Estados Unidos e que logo alcançou muitos
outros países, como o Brasil, visou atualizar o ensino da disciplina ao mesmo
tempo em que o aproximava da pesquisa que era realizada nas universidades e
centros de pesquisa.
Entre
suas principais motivações originais estava o sentimento de urgência em
recuperar o suposto atraso em relação à União Soviética, que
acabava de lançar o primeiro satélite artificial (Sputnik), que tomou conta das
instituições norte-americanas. Mas o movimento tinha raízes ainda mais
profundas.
Na
virada para o século 20, o alemão Felix Klein, um dos grandes de sua geração e
fundador da Comissão Internacional de Instrução Matemática, o organismo internacional da área
de educação matemática, já criticara o divórcio
entre a disciplina da escola e a da universidade, defendendo que os currículos
escolares precisavam incorporar os espetaculares avanços alcançados no século
anterior.
Influenciado
intelectualmente por Nicolas Bourbaki, o grupo de destacados franceses que
estavam recriando as fundações da disciplina, o movimento da Matemática Moderna
apostou na abstração, propondo ensinar toda a matemática a partir da teoria dos
conjuntos.
O resultado não foi consensual: o elevado nível de raciocínio
abstrato —que os próprios professores não estavam preparados para ensinar— e a
aparente desconexão da realidade concreta foram mal compreendidos e tornaram-se
rapidamente motivo de ridículo.
Morris
Kline, um de seus críticos mais severos, argumentou no livro "Why Johnny
can’t add" ("Por que Joãozinho não sabe somar") que a Matemática
Moderna privilegiava a abstração, em detrimento da compreensão das ideias e da
competência básica nas tarefas essenciais.
Desacreditado, o movimento foi
perdendo força ao longo dos anos 1970. Quando eu estava no ensino fundamental,
os veteranos do ensino médio ainda tinham turmas de "matemática
moderna", mas quando cheguei nesse estágio essa opção já tinha sido
eliminada.
O
que ficou, então, desse experimento? Na verdade, muito mais do que a maioria
das pessoas imagina. Os conceitos fundamentais da teoria dos conjuntos, como
união, interseção e inclusão, estão tão bem absorvidos que nem nos apercebemos
mais de que eles já foram novidades controversas.
Mas o legado da matemática
moderna vai muito além. Em particular, merece crédito por ter finalmente
trazido para os currículos escolares ideias que eram muito caras a Klein e que
hoje consideramos indispensáveis, como o conceito de função, que está na base
de inúmeras ferramentas matemáticas atuais.
O
ensino também passou a adotar uma linguagem mais precisa, com mais foco no
raciocínio, inclusive na ideia de demonstração, e menos na execução mecânica de
cálculos rotineiros que imperara nas salas de aula até então.
A
abstração, tão criticada na época, é intrínseca à disciplina e não poderia ser
eliminada.
Mas a escola dos nossos dias, pelo menos em princípio, busca
suscitar um desenvolvimento gradual dos conceitos abstratos, em ritmo adequado
à evolução cognitiva do estudante.
E, como consequência, a formação do docente
também mudou de forma irreversível.
No
final, a resposta à pergunta no título, é "Ambos. E nenhum dos dois".
Como acontece frequentemente na vida.
MARCELO VIANA | diretor-geral do Instituto
de Matemática Pura e Aplicada, ganhador do Prêmio Louis D., do Institut de
France