Melhor falar de Havaianas do que de PL da
dosimetria
- Marca de chinelos é alvo de polêmica por comercial com atriz
Fernanda Torres
"Sobre
o que escrever na semana do Natal?". Me perguntei ao deitar na cama
no domingo (21), sabendo que, na terça-feira (23), teria que submeter o meu
texto para publicação.
Com o mundo já em clima de recesso, fui dormir certa de
que nada poderia acontecer nas 24 horas seguintes que fosse render algum debate
relevante.
Ledo
engano. Ainda me encontrava na cama, quando dei de cara com a mais recente
polêmica digital de tantas que aconteceram este ano. A treta da vez teve um
início inusitado: um aparentemente inofensivo comercial de fim de ano de Havaianas.
A marca de chinelos que experimentou um ano de
crescimento internacional espetacular, atingindo o posto de "Hottest
Product" (produto mais desejado) na Lyst Index Report, já contava
com Fernanda Torres como sua garota
propaganda desde setembro deste ano, mas foi a campanha de Natal da marca que
estreou neste domingo que deu o que falar.
Nela, Torres se encontra sentada numa cadeira, em
frente a um display de chinelos. Diretamente atrás de sua cabeça estão as
Havaianas vermelhas, talvez uma alusão ao… Natal?
"Desculpa, mas eu não quero que você comece
2026 com o pé direito" diz a atriz olhando para a câmera. A chamada
utiliza um dos truques mais antigos da indústria da propaganda: contradizer
algo que é senso comum como forma de chamar atenção da audiência. Uma espécie
de clickbait à moda antiga. Nada novo.
Fernanda segue o script esclarecendo "não ter nada
contra a sorte", mas que 2026 deve ser o ano em que cada um de nós deve
tomar as rédeas do próprio destino.
Não bastaram 24 horas no ar e o campo político da direita ía à loucura. Eduardo Bolsonaro jogava fora suas amadas
Havaianas (tão amadas que foram escolhidas para compor sua mala na mudança não
tão temporária para os EUA).
Nikolas Ferreira por sua vez fazia
referência ao slogan da marca dizendo: "Agora nem todo mundo vai
usar". Era como se o comercial contivesse um insulto codificado para
ofender apenas a audiência daquele determinado espectro político.
É bem verdade que essa estratégia não é nova. Em
julho deste ano, a repercussão de uma campanha da marca American Eagle seguiu
um roteiro semelhante.
Intitulado "Sidney Sweeney has great jeans",
(Sidney Sweeney tem jeans ótimos, em tradução livre; uma brincadeira com a
semelhança sonora entre as palavras "jeans" e "genes") o
comercial foi acusado por parte da esquerda americana de passar uma mensagem
supremacista, dando a entender que a genética de Sweeney, uma menina branca, de
olhos azuis, seria superior às demais.
A discussão tomou as redes sociais e
acabou deixando um saldo positivo para a marca: mais visibilidade, mais
engajamento, e mais vendas.
É possível portanto que os executivos da Havaianas
tenham seguido a mesma cartilha, aquela que entende que polêmica viraliza e
viralização vende.
Os resultados já estão aí para provar: em 48 horas a marca perdeu pouco mais de 3.000
seguidores, mas ganhou novos 150 mil, viu suas ações caírem na bolsa e depois subirem
novamente.
Mas, talvez, a campanha de Natal da marca tenha
sido apenas isso, uma campanha de Natal. Com um fundo vermelho porque é a cor
da roupa do Papai Noel. Com a Fernanda Torres porque é ela a atriz mais
bem-sucedida e querida do povo brasileiro hoje.
E talvez a direita tenha decidido fazer de um
comercial de Natal a sua pauta do momento simplesmente porque é mais fácil
bater nas Havaianas do que defender a aprovação do PL da dosimetria. Talvez.
JOANNA MOURA - publicitária, escritora e produtora de
conteúdo. Autora de "E Se Eu Parasse de Comprar? O Ano Que Fiquei Fora da
Moda"