Bem-vindo à era da psicose artificial
- Pesquisa científica não tem imunidade na pandemia de falsidade que
varre o planeta
- Zhao et al garimparam 146.932 citações falsas em 2,5 milhões de
artigos acadêmicos
Vivemos
numa época em que um pré-candidato a presidente mente dizendo ser mentira
pedido de R$ 134 milhões. Pego na mentira, mente de novo dizendo que está tudo
bem, afinal uma cláusula de sigilo em contrato exigiria que mentisse a
respeito.
Sem
corar, sem abalar seus eleitores fiéis, sem ser defenestrado da disputa. Não
existirá no Brasil um pastor honesto para explicar ao senador e seu rebanho que
sigilo não obriga ninguém a mentir, só a calar ou desconversar? Supondo que o
contrato e a cláusula existam.
Já
não vigora máxima "é a economia, estúpido". Doravante prevalece
"é a narrativa, estúpido". Mesmo que a narrativa seja incoerente,
mendaz, errática, alucinada. Tipo as narrativas que cercam o cessar-fogo
no Irã, em Gaza ou na Ucrânia.
Discursa-se para quem vai concordar de antemão.
Para os escravos do viés de confirmação. Para os arautos da servidão
voluntária. Para quem acredita em mamadeira de piroca, cloroquina, proxalutamida e ivermectina. Para quem toma detergente e
desdenha de vacinas.
Quando a melhor tática de guerra cultural é inundar
o campo com excrementos, não se turvam só as águas da retórica política. Valem
mais o ato reflexo, a reação imediata, o juízo pronto, a ideia feita.
Saem de
cena a verificação dos fatos, a ponderação dos argumentos, a obediência à
lógica e o benefício da dúvida.
No clima de pega para cancelar, imola-se a
reputação da artista Marília Marz por uma charge de crítica aos penduricalhos do Judiciário que foi
instrumentalizada como suposto deboche da morte de uma juíza em procedimento
cirúrgico. Até uma pesquisadora imortal da ABL caiu na esparrela de
corporativistas despudorados.
Dostoiévski escreveu em "Os Irmãos
Karamazov" que, se Deus não existe, tudo é permitido. Atualize-se o dito
para estes tempos ímpios e filistinos: se fatos não existem nem para luminares
da academia (ou das redes antissociais), vale tudo. E se engana quem acha que
a ciência está imune à pandemia de
falsidade.
Fabricação de dados, maquiagem de estatísticas e
manipulação de imagens sempre acossaram a pesquisa acadêmica, é fato. Elizabeth Bik que o diga. Mas ferramentas
digitais e inteligência artificial (IA) bombardeiam
a integridade do edifício do conhecimento com a eficiência módica de um enxame
de drones iranianos. Nunca foi tão fácil forjar um paper.
Mentiras produzidas por IA ganharam o apelido fofo
de "alucinações" (não tão fofo assim, pois nem mesmo carregam o
lastro de sofrimento nas psicoses reais).
Um sintoma da fabulação está na
invenção de citações, como vêm de quantificar Zhenyue Zhao e colegas num artigo para o diretório arXiv, onde pesquisadores
postam trabalhos (preprints) sem passar pelo crivo de pares ("peer
review").
Zhao &cia peneiraram 111 milhões de referências
listadas em 2,5 milhões de artigos do ano passado em coleções como o próprio
arXiv ou bioRxiv, SSRN e PubMed. Encontraram 146.932 citações falsas, ou seja,
referências a trabalhos que não existem.
Dizem que só as baratas sobreviverão à passagem de
humanos pela Terra, mas, se o site Kalshi da bilionária brasileira Luana
Lopes Lara aceitar, apostaria dois tostões nos cupins.
MARCELO LEITE | jornalista de ciência e ambiente, autor de “A Ciência
Encantada de Jurema.