Menor
taxa de desemprego, mas maior gasto com seguro-desemprego da história?
Políticas
públicas brasileiras não estão parando em pé.
O Brasil vive um paradoxo claro.
A taxa de desemprego caiu para 5,2%, que é o menor nível de toda a série
histórica. Mas os gastos com seguro-desemprego não param de subir e bater
recordes.
Nos 12 meses que terminaram em novembro, os desembolsos chegaram a
mais de R$ 57 bilhões, bem mais do que os R$ 47 bilhões de 2022, quando a taxa
de desemprego era muito mais alta. Como é que isso é possível?
Duas razões.
A
primeira é que o conceito de desemprego não é o mesmo para cálculo da taxa de
desemprego e para receber o auxílio-desemprego.
Para ser considerada
desempregada, uma pessoa precisa, para fins do cálculo da taxa de desemprego,
não apenas estar sem trabalhar, mas além disso, ela precisa estar procurando
emprego. Já, para receber o seguro-desemprego basta não estar trabalhando.
Aí
entra a segunda razão: as enormes falhas no desenho dos programas sociais
brasileiros. Com uma batelada de benefícios sociais que são atrelados às
pessoas estarem sem emprego, criamos um incentivo perverso para que as pessoas
não busquem um, ou quando o encontrem, não sejam registradas.
Com
isso, há atualmente no país cerca de 15 milhões de beneficiários só do Bolsa
Família que não trabalham, não procuram emprego e não aparecem na taxa de
desemprego. Uma parte deles, inclusive, também recebe, além disso tudo,
auxílio-desemprego.
As
regras atuais incentivam também outros comportamentos oportunistas, como a
migração para a informalidade. Cerca de metade dos trabalhadores brasileiros
não são registrados, sendo que dezenas de milhões deles se beneficiam também de
diversos programas sociais brasileiros, mas nenhum deles contribui para a
previdência social.
Isso
aumenta muito o déficit da previdência, o que por sua vez acaba forçando a
redução dos benefícios daqueles que contribuíram a vida toda para poder se
aposentar.
Além disso, a política de reajustes do salário-mínimo acima da
inflação do atual governo eleva automaticamente o valor de benefícios que são
atrelados a ele.
Isso, por sua vez, pressiona os gastos mesmo no caso de
programas que têm menos beneficiários – como no seguro-desemprego – e faz os
gastos explodirem quando, além disso, há um aumento do número de beneficiários,
como é o caso da previdência.
Na
verdade, o Brasil não só gasta demais com programas sociais, mas gasta muito
mal. O país poderia eliminar completamente a miséria e a pobreza, gastando
pouco mais da metade do que gasta se, apenas, usasse bem os recursos.
Só para
ter uma ideia, o Brasil gasta 16,8% do PIB com proteção social. Isso é mais do
que a média dos países ricos.
A maioria dos países da Europa, Estados Unidos,
Canadá e Japão gastam proporcionalmente menos do que o Brasil com programas
sociais, com resultados muito melhores. As consequências desses gastos enormes
são: impostos elevadíssimos e contas públicas desequilibradas.
Isso
eleva a inflação e obriga o Banco Central a manter juros muito altos, o que
penaliza todos os brasileiros, mas, como sempre, quem sente mais são exatamente
os mais pobres.
Se o gasto com seguro-desemprego está batendo recordes com a
menor taxa de desemprego da história, adivinhe o que vai acontecer quando,
inevitavelmente, em algum momento a taxa de desemprego subir?
RICARDO
AMORIM
- autor do bestseller Depois da Tempestade, o economista mais influente do
Brasil segundo a revista Forbes, presidente da Ricam Consultoria.