Mais difícil que cortar o álcool é aceitar o que
vem depois dele
- As dores que carrego comigo às vezes pesam no ombro
- É duro entender que existe vida depois de tantos tropeços, e que é
preciso aceitar e seguir adiante
O
mais difícil —e o começo de tudo— é aceitar. É se render à doença do alcoolismo. Admitir que sou alcoólatra foi um processo lento. Tive que
passar por muitas coisas ruins até me render: clínicas, hospitais, médicos,
cultos religiosos e tantas outras coisas.
Eu
admitia tudo, menos parar de beber. Durante muito tempo, usei a depressão como
minha principal doença. Aceitava tomar todos os comprimidos que me receitassem,
desde que não me pedissem para cortar o álcool.
É
complicado mesmo, pelo menos foi para mim, que cresci em um ambiente em que a
bebida era muito presente. Já falei do alcoolismo do meu pai e dos abusos que
acredito existirem na minha família. Além disso, o álcool era a chave para
acabar com minha timidez e para tantas outras coisas que canso de falar por
aqui.
Mas
ainda mais difícil do que cortar o álcool da minha vida é aceitar o novo
cenário. Aguentar o tranco de ter perdido tantas oportunidades de trabalho, de
ver pessoas que trabalhavam comigo ocupando bons cargos em grandes empresas
enquanto eu estou em outro patamar.
Ter a certeza de que não aguento mais ficar muito
tempo em festas. Que não tenho mais o pique que tinha aos 20 e poucos anos,
quando comecei a beber. Ver que engordei quilos por causa de remédios e não
consigo voltar ao meu peso. Perder roupas. Tudo isso pode parecer fútil ou
banal, mas não é.
As dores que carrego comigo às vezes pesam no
ombro. Sei que não vou mais conseguir fazer uma série de coisas que poderia ter
feito se não tivesse insistido no álcool ou antes dos surtos da bipolaridade. Preciso me conformar
com aceitar ajuda financeira dos meus irmãos e dos meus pais porque não consigo
mais fechar o mês no azul, como conseguia antes de a doença pegar pesado.
Choro ao escrever porque dói. Machuca. É muito
difícil entender que existe vida depois de tantos tropeços. Que é preciso
aceitar e seguir adiante. Mostrar minhas fraquezas, encarar que não consigo
mais fazer uma série de coisas é às vezes doloroso.
O que fazer quando o aperto chega? O peito
arrebenta de dor. O medo, o pavor de tantas coisas, chega arrebatando. Eu paro.
Deixo tudo o que tenho que fazer e escrevo aqui. Porque sei que não estou
sozinha. Muita gente também passa pelos mesmos percalços.
Outro dia, fiz um teste e liguei para o CVV —Centro
de Valorização da Vida. Fui informada de que havia 56 pessoas na minha frente.
São milhares de pessoas que passam por dores semelhantes. E é preciso seguir em
frente.
Hoje, parei tudo o que estava fazendo e fui ao
cinema com meu amigo. São essas pequenas coisas que vão me ajudando a construir
um futuro possível.
Sem álcool, sem festa, sem glamour. Sem maquiagem.
A vida é como ela é. E eu só preciso aceitar.
ALICE S. | Blog Vida de
Alcoólatra